Nürnberg, viel mehr als Weihnachtsmarkt. Nuremberg, muito mais que feira de Natal.

Nos dias 15 e 16 de dezembro visitei Nuremberg na Bavária, na companhia de um colega brasileiro de Leipzig, o Alberto. O meu objetivo era conhecer o mercado de Natal de Nuremberg, o mais famoso e badalado da Alemanha, sem saber que a cidade tinha muito mais a oferecer. Quando chegamos lá no sábado de manhã, deixamos nossa bagagem no hostel, e fomos direto visitar o castelo da cidade. Passamos pelo mercado de Natal e comemos a famosa Nürnberger Wurst, 3 salsichas pequenas num pão francês, que aliás estavam custando o olho da cara (3,50 euros). A cidade foi completamente destruída na Segunda Guerra Mundial (afinal, o que não foi destruído durante a guerra na Alemanha?), mas é possível sentir a história daquele lugar, embora a maioria dos prédios sejam fake, reconstruídos. No castelo fizemos um tour guiado, que foi muito interessante. Descobrimos que Nuremberg foi uma das cidades mais ricas da Idade Média, uma vez que tornou-se o centro comercial de especiarias. Juntamente com Veneza e Bruges, a cidade era rota dos mercadores que vinham vender ou comprar condimentos trazidos das Índias. Tanto que o tradicional Lebkuchen ou Pfefferkuchen, semelhante ao nosso pão-de-mel, foi o símbolo dos tempos áureos da cidade. O Lebkuchen valia ouro naquela época. Com a descoberta da América, a cidade perdeu sua importância como rota comercial. Naquele dia havia vários brasileiros na cidade, só para variar. Subimos no alto da torre do castelo, de onde tivemos uma vista privilegiada da região. Os telhados são todos vermelhos, e na ocasião estavam cobertos com uma neve remanescente. Fumaça saía pela chaminé das casas. Visitamos algumas igrejas, algumas lojas de doces, andamos pela região do rio, até que escureceu e era hora de conferir o mercado de Natal. As barracas cobertas com tendas listradas de branco e vermelho destacavam-se naquela infinidade de luzinhas na praça principal. Havia uma multidão de pessoas; estava difícil até de se locomover. Milhares e milhares de turistas, principalmente americanos, comprando, comendo e bebendo. Embora tudo fosse lindo, a aglomeração de pessoas desanimou um pouco, pois toda hora tínhamos que prestar atenção na mochila, na câmera fotográfica, esbarrra aqui e ali, e assim vai. Não senti aquele encanto dos pequenos mercados natalinos que vi em Wernigerode, Quedlinburg ou no Erzgebirge. Mas foi uma experiência legal. Não comprei muita coisa, pois os preços estavam exorbitantes, justamente para lucrar em cima dos turistas. E então começou a chover fino e esfriar bastante, quando resolvemos ir para o Hostel.
No dia seguinte seria o dia cultural do passeio. Nosso objetivo era visitar o Germanisches Nationalmuseum, o Tribunal de Nuremberg e o Doku-Zentrum. O Germanisches Nationalmuseum estava fechado, o que nos deixou arrasados. Seguimos então em direção ao Tribunal de Nuremberg, onde os nazistas foram julgados pelos seus crimes de guerra. Para tanto pegamos um metrô que nos deixou a poucas quadras do Memorial, que inclusive continua até hoje funcionando como tribunal. Ao abrir a porta, eis que me deparo com o Isaac, um amigo dos tempos do curso de alemão de Leipzig. “Não acredito! Se tivéssemos combinado não teria dado tão certo”, falei. Isaac estava em Nuremberg com uma excursão da Universidade. Enquanto os outros que vieram junto estavam no mercado de Natal, ele resolvera visitar o Tribunal, já que conhecia a feira natalina. Foi uma experiência estranha visitar a sala 600 da corte. A sala foi modificada após o famoso processo, mas mantém as mesmas caracterísitcas da época. Naquela sala sentaram-se alguns dos envolvidos no regime nazista e no holocausto. Descobri que o processo gerou uma certa polêmica na época, uma vez que foi um processo arranjado, criado especialmente para o caso nazista. Até então não existiam tais leis e punições contra crimes de guerra e contra a humanidade. Tais leis foram elaboradas especificamente para o caso. A polêmica deu-se pelo fato de que o termo Julgamento não estava sendo corretamente interpretado. Não haveria julgamento, todo mundo já sabia que eles seriam acusados, pois contra aqueles fatos não haveria argumentos. Nuremberg foi escolhida para sediar o julgamento, não porque fazia parte da Bavária, estado onde nasceu o nazismo, mas sim porque o tribunal de lá era um dos poucos que haviam sobrado de pé na Alemanha após os bombardeios da guerra. Depois de acompanhar de perto toda a história do holocausto e ver com o meus próprios olhos os campos de concentração e conhecer suas histórias terríveis, chegar ali na sala 600 foi constatar que de fato uma pequena parte daqueles monstros foram condenados. A maioria dos covardes envolvidos no holocausto suicidaram-se após a rendição pelos russos, ou ainda fugiram para lugares distantes. Os poucos que foram pegos, foram condenados, alguns com pena de morte, outros com prisão. Embora seus crimes foram tão cruéis e baixos, punições tão leves não os fariam pagar por tais atos, mas houve pelo menos um senso de “justiça”.
Isaac teve que sair às pressas, pois ainda queria visitar o Doku-Zentrum. Assim que terminamos de visitar o Tribunal, fomos também para o Doku-Zentrum, que é o melhor museu/memorial/arquivo sobre o nazismo que eu vi na Alemanha até hoje. Conta de forma detalhada mas bem simples de compreender, por meio de fotos, vídeos e objetos, a ascenção do nazismo, a megalomania de Adolf Hitler e os seus projetos ambiciosos para a Europa. Havia um telão exibindo um filme que eu não conhecia, Triunfo da Vontade (Triumph des Willens), filmado pouco antes da guerra, e que mostra a popularidade do Führer e a idolatria do povo para com ele. Triumph des Willens foi dirigido pela cineasta Leni Riefenstahl, a qual foi escolhida pelo próprio Hilter, produzindo um filme bastante moderno, pensando nas técnicas cinematográficas da época. Isaac ainda passou por mim, acenando, dizendo que iria correndo encontrar o ônibus da excursão. Ficamos lá até o último minuto, quando o museu avisou que dentro de alguns minuto ele seria fechado, vidrados naquele espaço tão interessante, e ao mesmo chocados com aquelas histórias. Sempre me choco quando visito lugares assim. Quando você é confrontado com uma verdade que não queria acreditar, acontece isto. Já eram 17:30 h quando o museu fechou. Seguimos para o Hostel pegar a bagagem de Alberto. Para nossa surpresa, passamos por uma espécie de Red Light District de Nuremberg, a semelhança com o bairro vermelho de Amsterdam. Mulheres seminuas de lingerie insinuavam-se nas vitrines das “lojas”, batendo no vidro para chamar a atenção dos passantes. Havia mulheres magras, gordas, altas, baixas, novas, velhas. Até uma senhora de uns 70 anos estava lá dentro, porém vestida normalmente. Quando eram quase 19:30 h embarcamos rumo a Leipzig, não sem antes cometer uma gafe. Não havia muito espaço no trem e quando avistamos uma cabine praticamente vazia, nos sentamos. Havia um homem sentado ali que estava com um certo ar de desconfiança. Quando o fiscal apareceu para controlar nossos bilhetes, ele disse que ali era a primeira classe e que teríamos que ir para a segunda classe. “Por isso que estava tão vazio”, comentei aos risos com o homem. “Deswegen!”, completou ele. Cheguei 00:20 h em Halle, exausto, e tive que pegar um táxi para ir para casa, pois àquela hora já não havia mais Strassenbahn nas ruas.

Eu fiquei impressionado com a ideias arquitetônicas megalomaníacas de Hilter, que foram mostradas no Doku-Zentrum. Veja os vídeos abaixo:

Trailer do filme “O Julgamento de Nuremberg”, de 2000.

Tage 15 und 16: Warschau/Varsóvia.

Naquela manhã cinzenta do dia 11 de agosto, sentado em uma mesa de um Café no centro histórico de Varsóvia e bebendo um enorme copo de café de 500 mL, percebi que novos ventos sopravam. Estava frio. Estava triste. Algo me dizia que os próximos meses seriam difíceis. E de fato foram. Um dia antes, ao chegarmos na estação de trem de Varsóvia, após 5 h de viagem desde Cracóvia, Gergely e Ezster ficaram mudos e boquiabertos ao verem os arranha-céus da cidade. “Não são tão grandes como os de São Paulo!”, falei. O hostel Okidoki foi simplesmente o melhor e mais confortável de toda a viagem. Extremamente organizado, limpo, bonito. Varsóvia estava em obras no centro novo da cidade; estavam fazendo a ampliação do metrô. Fiquei impressionado com a cidade. Muito jovem, moderna, limpa. Os arranha-céus nos fazem lembrar de Nova York ou São Paulo. E novamente cheia de turistas. A atração principal, símbolo da cidade, fica por conta do prédio do Ministério da Ciência e Cultura, semelhante ao Empire State Building. Sua iluminação noturna é especial. Seguimos para o centro histórico, onde há várias igrejas e ruas estreitas, além da residência do presidente da Polônia, a Universidade de Varsóvia e também a casa onde nasceu o compositor Chopin. Segundo Ezster, que estudou piano, é extremamente difícil tocar Chopin. Há também a estátua de Copérnico, que nasceu em território polônes. Tudo ali foi destruído na Segunda Guerra Mundial, durante a ocupação nazista da Polônia, mas a cidade foi incrivelmente reconstruída como antigamente. Vide a Ulica Piwna para se ter uma ideia da restauração perfeita. Há um castelo na praça principal, e um pouco mais afastado memoriais do Levante do Gueto de Varsóvia. A cidade respira história. É como se todos os edifícios, as pedras das calçadas, as árvores sussurrassem histórias aos nossos ouvidos. Nas praças floridas, árvores carregadas de maçãs e “mirabelles” ao alcançe. O aroma de maçã é a minha memória olfativa de Varsóvia, chega a ser nostálgico. O dia cinzento favoreceu essa sensação. A noite a temperatura caiu para uns 12 ºC, em pleno verão. Jantamos num restaurante no centro histórico, mas escolhemos a dedo um cardápio que coubesse no orçamento, pois nossos slotys estavam acabando. Paguei a conta tudo em moedas, para o desagrado do garçom. Chegando no Hostel, Eszter seguiu para a ala feminina, enquanto nós fomos para o nosso quarto. O terceiro hóspede havia chegado. Era um alemão do sul, acho que de Mahnheim, mas não lembro direito. O cara estava fazendo um mochilão pelo leste europeu para curtir as baladas eletrônicas. Achei ele meio estranho. Na manhã seguinte, no sábado, nos separamos: os dois irmãos foram visitar o Museu da Revolta de Varsóvia (Warsaw Rising Museum), enquanto eu fui visitar o Palácio Real no centro histórico. Não que eu não quisesse visitar àquele Museu, mas é um tema muito específico, um capítulo a parte da história da Segunda Guerra Mundial. E por outro lado, eu gosto de castelos e palácios. Quando que eu vou poder visitar novamente castelos? E não me arrependi. O Palácio Real foi 100% bombardeado e foi inacreditavelmente reconstruído. As linhas retas e sem graça da fachada externa, escondem uma indescritível beleza interior. Muito dourado, vermelho, muitos espelhos. Foi ali no castelo que a Constituição Polonesa de 3 de maio de 1791, considerada a primeira constituição nacional moderna codificada da Europa assim como a segunda mais antiga no mundo, foi instituída. Durante a 2a Guerra Mundial, sob ordens de Hitler, o castelo real foi bombardeado e saqueado pelos nazistas. Obras de arte e outras relíquias foram levadas a Alemanha ou mantidas na Polônia sob poder dos alemães. Porém, muitos objetos foram salvos por poloneses engajados em preservar sua história, permitindo mais tarde que o castelo pudesse ser reconstruído fielmente como o original. Quer saber mais da história do Castelo Real de Varsóvia? Então clique aqui. Gergely e Eszter contaram-me que a visita ao Museu da Revolta de Varsóvia valeu a pena. A fila estava gigantesca. Segundo a recepcionista do hostel, o museu havia sido recém-inaugurado. Uma exposição de objetos de guerra, depoimentos, fotos e vídeos relembram aqueles momentos.
As 14 h nos encontramos na Estação de Trem. Meu trem partiria as 15 h com destino a Berlim, enquanto os dois irmãos pegariam um vôo para Budapeste. Nos despedimos rapidamente. “Foram duas semanas bastante divertidas”, comentei. Foi cansativo, mas conheci tanta coisa, vi tantas coisas lindas, que a gente nem imagina que possa existir no mundo. O mundo está aí para ser descoberto. No trem a caminho de Berlim foram longas 5 h de viagem. A paisagem deslumbrante! Macieiras carregadas, casinhas nas áreas rurais, as plantações, o gado. Para mim as paisagens austríacas e polonesas foram as mais bonitas. Após duas semanas pela Europa Central, a bagagem cultural era enorme, a quantidade de histórias para contar imensa. Embora o volume de impressões e deslumbramentos fosse absurdamente grande, estava só. Me sentia só. Um vazio amargo consumiu-me. Era o inverno de 1993 voltando. O segundo semestre começaria a partir daquele momento.

Tag 14: Auschwitz.

Jamais me esquecerei do dia em que visitei o Memorial Auschwitz-Birkenau, a 200 km de Cracóvia. O dia estava ensolarado, o céu de um azul límpido. Ao se aproximar do emblemático portão de entrada, com os trilhos do trem ao meio, emudeci. Calei-me ao constatar que aquilo tudo ali realmente existiu, que era real. Quando a gente lê nos livros ou vê nos filmes, aquilo tudo soa tão fantasioso, tão brutal, que a gente acaba não acreditando. Por isso, como curioso por esta parte da história que sou, visitar Auschwitz sempre foi uma das minhas prioridades na Europa. Lá dentro, silêncio. Não havia barulho, não havia sons. Havia paz lá dentro, finalmente. É uma grande contradição: um lugar outrora movido pelo ódio e pela intolerância, hoje transmite uma imensa paz. As cercas de arame farpado estão por todo lado, delimitando as áreas das barracas. Apesar da grande maioria estar em ruínas, algumas barracas ainda estão lá, testemunhas oculares dos horrores do Holocausto. A barraca onde eram feitos os experimentos médicos conduzidos por Mengele continua de pé. A grama é extremamente verde, contrastando com o marrom das cabanas. Alguns “banheiros” estão preservados, mas não é possível entrar. As latrinas – vários buracos no meio de uma coluna comprida – eram usadas pelos prisioneiros, assim como canaletas onde havia água para lavarem-se. Divergindo sobre questões históricas, Gergely e eu discutimos feio. Em alemão, levantamos o tom para defender a nossa opinião. Tive a impressão de que ele estava romantizando ou deturpando os fatos históricos, ao referir-se aos soldados nazistas com os termos “humanidade” e “respeito”. Ezster não se envolveu. Entramos numa das barracas e fiquei chocado em ver com meus próprios olhos às condições que os prisioneiros eram submetidos. Chão batido, camas de madeira apenas com um bocado de palha e um forno usado como aquecedor. Segundo a inesquecível Sonja de Dachau, no inverno os aquecedores não eram ligados, numa demonstração de que os prisioneiros não eram “gente” para ter esse privilégio. O forno estava ali, mas eles não poderiam usá-lo. Frases irônicas e de repreensão como: “Fique em silêncio” estavam pintados nas vigas de madeira e paredes. Nos barracões apertados eram acomodados entre 400 e 800 pessoas, dependendo do tipo de instalação, uma situação desumana. Não há mais o crematório; ele foi totalmente destruído pelos próprios nazistas no final de 1944, quando eles já sabiam que as chances de vencer a guerra eram mínimas, numa tentativa de encobrir as provas dos horrores cometidos. No barracão de seleção, que continua nos fundos do campo Birkenau, os prisioneiros despiam-se e eram lavados com jatos de água gelada, e permaneciam nús durante horas sobre o piso de cimento, até terem seu destino definido pelos soldados alemães. Naquele dia havia uma missa rezada em alemão, polonês e latim, em homenagem às vítimas do Holocausto. Sentamos na grande praça onde ficava o crematório e ouvimos um pouco da missa. Nunca havia experimentado tanta paz. Foi uma experiência inusitada para mim, que estava prevendo que seria muito difícil entrar lá. Num lugar que vivenciou as mais baixas e cruéis demonstrações de até onde o ser humano pode chegar, é possível sentir-se sereno, embora para qualquer lugar que se olhe, evidências do genocídio são encontradas. O mais importante é não esquecer do que aconteceu lá dentro, para que tamanho crime não se repita. É preciso ver aquilo ali de perto, deixar-se tocar, sofrer com as provas chocantes (sapatos, cabelos raspados, latas do gás asfixiante) e dos números gigantescos do Holocausto. Jamais esquecer.

Dachau (2): der Ort des Terrors. O lugar do terror.

“Quando se está lá dentro do campo a gente tem uma sensação de vazio, de solidão. Embora haja um número grande de turistas e seja possível escutar todo burburinho, senti-me só. É impossível visitar um lugar desses e não sair diferente de lá. Toda essa história te afeta de alguma maneira, que te muda, você se transforma numa outra pessoa. Você descobre que o ser humano foi e ainda é capaz de fazer qualquer coisa”, refleti. Não há mais barracas e cercas elétricas originais em Dachau. Quando os americanos chegaram, horrorizados com a cena, trataram de destruir tudo a fim de eliminar essa idéia terrível para os refugiados que acabaram de ser libertados. O pátio central era enorme. Era lá que os prisioneiros eram recebidos em filas e escutavam às ordens. Muitas vezes eles eram obrigados a despir-se e andar nus pela neve. Numa dessas vezes, Adolf Eichmann recebeu os prisioneiros em Dachau. O inverno fora intenso naquele ano. A neve passava do joelho. Nus, em filas paralelas, os soldados conheceram a maldade em pessoa. De repente Eichmann selecionou um dos prisioneiros e executou-o na frente de todos. E disse: “Isso aqui é para mostrar o que acontece com quem não obedece e trabalha. O único que dá risada em Dachau é o diabo. E o diabo sou eu”. Adolf Eichmmann Foi o grande responsável pela logística de extermínio de milhões de pessoas durante o holocausto, em particular dos judeus, que foi chamada de “solução final” (Endlösung), organizando a identificação e o transporte de pessoas para os diferentes campos de concentração, sendo por isso conhecido freqüentemente como o executor-chefe do Terceiro Reich.
O Campo de concentração de Dachau foi construído em 1933 pelos nazistas em uma antiga fábrica de munição próxima a cidade de Dachau, cerca de 5 km ao norte de Munique, no sul da Alemanha. Foi o primeiro campo de concentração regular assentado pelo governo nazista. Heinrich Himmler, o diretor da polícia da cidade de Munique, descreveu-o oficialmente como “o primeiro campo de concentração para prisioneiros políticos”. Os campos foram construídos com a ideia inicial de reeducar os prisioneiros para serem posteriormente liberados e reintegrados a sociedade. Mas segundo Sonja, poucos saíram com vida dos campos. Durante o primeiro ano o campo tinha cerca de 4.800 prisioneiros. Inicialmente, os internos eram alemães comunistas, social-democratas, sindicalistas, e outros adversários políticos do regime nazista. Com o passar do tempo, outros grupos também foram encarcerados em Dachau, entre eles testemunhas de Jeová, ciganos, homossexuais, aqueles considerados “anti-sociais”, além de criminosos corriqueiros. Durante os primeiros anos relativamente poucos judeus foram presos, e os que o foram pertenciam a uma das categorias acima mencionadas ou eram aqueles que já haviam cumprido sentença prisional comum por haver infringido as Leis de Nuremberg de 1935. No início de 1937, as SS (Schutzstaffel, polícia nazista) iniciaram a construção de um enorme complexo de prédios nas dependências do campo original utilizando o trabalho forçado dos prisioneiros. Os encarcerados foram obrigados a derrubar a antiga fábrica e, sob condições terríveis, iniciaram a edificação do campo, o qual foi oficialmente concluído em meados de agosto de 1938, permanecido o mesmo praticamente inalterado até 1945, mostrando que Dachau esteve em funcionamento durante todo o período de duração do Terceiro Reich. O número de prisioneiros judeus em Dachau cresceu com o aumento da perseguição anti-semita, e nos dias 10 e 11 de novembro de 1938, como conseqüência da Noite dos Cristais, mais de 10.000 judeus do sexo masculino foram ali encarcerados. A maioria deles foi libertada após algumas semanas ou meses de reclusão após provarem que iriam embora da Alemanha.
O campo de Dachau era um centro de treinamento para os guardas de campos de concentração das SS; a organização e rotina deste campo tornaram-se modelo para os demais. Os alunos que lá estudavam aprendiam sobretudo que certas categorias sociais deveriam ser consideradas como Untermensch (sub-humano), como animais. Uma forte pressão psicológica fazia com que os alunos tornassem-se indiferentes ao sentimento alheio. O campo era dividido em duas seções – a área do campo e a área do crematório. A área do campo consistia em 32 quartéis, sendo que um deles era para sacerdotes cristãos presos por se oporem ao regime nazista e um outro reservado para “experiências médicas”. A administração do campo estava localizada na portaria da entrada principal, onde é possível ler uma inscrição alemã no portão de ferro: “Arbeit macht frei” (o trabalho liberta), semelhante à Auschwitz. A área do campo incluía uma série de prédios auxiliares onde ficavam a cozinha, a lavanderia, os chuveiros, as oficinas e um bloco-prisão. O pátio entre a cadeia e a cozinha central era usado para a execução sumária de prisioneiros. Uma cerca eletrificada de arame farpado, uma trincheira e um muro com sete torres de guarda rodeavam o campo.
Assim que chegavam ao campo de Dachau, os prisioneiros eram levados até uma sala onde deveriam despir-se completamente. Nus, recebiam um número, mais uma forma de demonstrar que aquelas pessoas não eram gente, apenas uma sequência numérica. Ali também eles eram obrigados a deixar tudo que haviam trazido: fotos, relógios, cigarros, isqueiros, correntes de ouro. Também assinavam desistência de todos os seus bens materiais e concediam autorização para que o regime nazista se apropriasse de seus terrenos, bens e do dinheiro guardado em contas bancárias. Essa foi uma das maneiras com que o Nazismo financiou seus planos maquiavélicos, através de dinheiro roubado. Em seguida os prisioneiros dirigiam-se para outra sala para receber o famosos uniforme listrado. As vezes o tempo de pegar o uniforme significava viver ou morrer. A melhor maneira de sobreviver era não chamar a atenção dos guardas. Um estado de medo foi implantado no campo. Colegas deduravam uns aos outros. Ninguem podia confiar em ninguém. Serial killers e outros criminosos perigosos eram trazidos aos campos para amendrontar os prisioneiros. Havia um sistema de classificação nos campos. Cada uniforme tinha um triangulo que, dependendo da cor, significava a que grupo o prisioneiro pertencia. O prisioneiros no campo de Dachau eram duramente reprimidos e torturados quando os soldados nazistas consideravam algo irregular. Havia três métodos de disciplinamento ou tortura, conhecido como 3B. O primeiro deles consistia em amarrar o prisioneiro em uma barra de madeira no teto com as mãos para trás (as costas enconstavam a madeira). Ali os prisioneiros permaneciam por tempo ilimitado, até que os soldados considerassem a pena paga. Muitas vezes, o corpo dos prisioneiros começava a pender para baixo. Os ligamentos dos músculos se distendiam, rasgando-os literalmente, até que o corpo caísse. Com a dor, muitos desmaiavam. Os soldados simplesmente jogavam água gelada nos rostos dos prisioneiros, davam tapas ou pior, jogavam os cães ferozes para cima para arrancar pedaços de músculos com a mordida, na tentativa de acordar o prisioneiro. O segundo método era baseado na tortura psicológica: o prisioneiro era obrigado a contar de 1 até 25 em alemão enquanto apanhava brutalmente com um pedaço de madeira nas costas. Com a dor, muitos se confundiam, ou simplesmente nao sabiam contar os números em alemão. Desta maneira, tinham que começar tudo de novo, desde o número 1. Relatos de sobriventes contam que durante a noite, muitos prisioneiros antigos ensinavam aos sussurros os novos a contar os números em alemão. O terceiro método era o mais temido. Os prisioneiros eram levados para uma cela. Lá eram submetidos a todos os tipo de tortura, sobretudo psicológica. No inverno, as janelas da cela eram abertas; no verão, os aquecedores eram ligados no máximo. Cães ferozes eram trancados juntos nas celas, para morder e arrancar pedaços. Surras de chicote ou pedaços de pau eram comuns.
Até 1942 havia um forno com capacidade baixa em Dachau. Até então os corpos não eram cremados, mas sim enterradados ou enviados para suas famílias dentro de caixões selados. Após a Conferência de Wannsee, em 1942, onde foi decretada a solução final para a questão judaica, todos os campos de concentração tinham por obrigação que ter um crematório, já que começaria o extermínio em massa. Os prisioneiros entravam na barraca X, despiam-se na camâra de desinfecção, onde os uniformes seriam desinfetados e entregues a outros prisioneiros. Os guardas falavam cinicamente: “Não se esqueçam onde vocês colocaram os uniformes, pois depois do banho cada um terá que pegá-los novamente”. Em seguida seguiam para a Warteraum (sala de espera), onde aguardavam a sua vez para o “banho”. Na Brausenbad os prisioneiros encontravam a morte. Chuveiros no teto completavam a encenação do banho mortal. Duas aberturas na parede serviam para jogar o gás letal dentro da sala, o Zyklon B. A morte demorava em torno de 15-20 min. Em seguida os corpos eram cremados em enormes fornos movidos a carvão. Montes de cinzas humanas eram formadas no pátio externo. Durante os últimos anos da guerra, a Alemanha não tinha mais dinheiro para comprar o carvão que alimentava os crematórios. Os corpos não eram mais cremados. Pilhas de cadáveres erguiam-se no pátio e as vezes fogo era ateado aos corpos. Não há provas documentais de que a câmara de gás daquele campo realmente tenha sido utilizada para assassinar seres humanos, embora fotografias da época mostram as pilhas e mais pilhas de corpos amontoados no pátio ao lado da câmara de gás, e ainda o relato de moradores da época dizia que havia um cheiro insuportável que vinha da fumaça das chaminés dos campo, algo como carne queimada. As SS também utilizaram o campo de treinamento de tiro e as forcas na área do crematório como locais para efetuar a matança de prisioneiros.
Em Dachau, como em outros campos nazistas, os médicos alemães realizavam “experiências médicas” nos prisioneiros, tais como testes de alta altitude usando câmaras de descompressão, experimentos com malária e tuberculose, hipotermia, e testes experimentais para novos remédios que servissem aos alemães. Os prisioneiros também eram forçados a serem cobaias em testes de métodos de dessalinização da água e de estancamento de perda de sangue excessivo. Centenas de prisioneiros morreram ou ficaram permanentemente incapacitados como resultado destas “experiências”. Experiências médicas também foram conduzidas em Dachau. A principal delas era em relação a hipotermia. Prisioneiros eram submetidos a experiências desumanas e chocantes. Os homens eram mergulhados em tanques com água gelada ou expostos ao relento durante a noite nos invernos rigorosos. O corpo congelava ao atingir 25 ºC. Então, os prisioneiros eram ressucitados com exposição a lampadas quentes (o que muitas vezes provocava queimaduras), banhos de água fervente (muitos morriam com o choque térmico), injetavam água fervente em órgaos vitais com estômago e pulmão, ou ainda obrigavam mulheres a terem relações sexuais com os corpos congelados. Essas experiências tinham o objetivo de descobrir as condições ideais para os soldados enfrentarem o inverno rigoroso na Rússia, alvo da Alemanha Nazista.
Os prisioneiros também eram mobilizados para trabalhos forçados, sendo primeiramente empregados na operação do campo, em diversos projetos de construção e em pequenos setores de trabalhos manuais; mas também construíam estradas, trabalhavam em pedreiras, e drenavam pântanos. Durante a Guerra, o trabalho forçado dos prisioneiros tornou-se extremamente importante para a produção de armamentos para a Alemanha. Para aumentar a produção de artigos bélicos, na segunda metade do ano de 1944 foram criados campos satélites, sob a administração de Dachau, localizados próximos às fábricas de armamentos, no sul da Alemanha. Para se ter uma idéia da dimensão destes acontecimentos, apenas em Dachau existiam mais de 30 grandes subcampos onde mais de 30.000 prisioneiros trabalhavam quase que exclusivamente na fabricação de armamentos. Milhares deles morreram de tanto trabalhar. Sonja contou que o trabalho era escravo, mais de 18 horas por dia. Durante todo o funcionamento do campo, houve três diferentes estágios: No 1º estágio o campo serviu apenas para o disciplinamento dos prisioneiros. Eles tinham que carregar pedras para lá e para cá, sem nenhuma finalidade, apenas para exaurir. No 2º estágio, o campo começou a produzir produtos de primeira necessidade para suprir o fronte de guerra, como produtos de primeiros-socorros, armas e munição. No 3º estágio, o campo fou utilizado para exterminar pessoas, com mortes em massa acontecendo 24 horas por dia.
À medida que as forças Aliadas avançavam em direção à Alemanha, os alemães começaram a transferir os prisioneiros dos campos de concentração próximos às linhas de frente dos campos de batalhas para evitar que eles fossem libertados. Carregamentos com milhares de prisioneiros dos campos evacuados chegavam continuamente em Dachau, o que resultou em uma piora dramática das já péssimas condições naquele local. Após dias de viagem, com pouca ou nenhuma comida ou água, os prisioneiros chegavam muito fracos e exauridos, vários já beirando a morte. Epidemias de tifo tornaram-se um sério problema devido à superlotação, as precárias condições sanitárias, a falta de alimentos e ao estado extremamente enfraquecido dos prisioneiros.
No dia 26 de abril de 1945, já próximo da data da chegada das forças norte-americanas ao local, havia 67.665 prisioneiros registrados em Dachau e em seus subcampos; mais da metade deles estava presa no campo principal. Destes, 43.350 foram classificados como prisioneiros políticos, 22.100 como judeus, e o restante era dividido entre outras categorias. A partir daquela data, os alemães obrigaram mais de 7.000 prisioneiros, a maioria deles judeus, a iniciarem a chamada “marcha da morte”, uma caminhada que ia de Dachau a Tegernsee, bem mais ao sul. Durante a marcha, os alemães atiravam em qualquer pessoa que não conseguísse continuar a andar; muitos outros morreram de fome, de frio e exaustão. Em 29 de abril de 1945, as forças norte-americanas libertaram Dachau. Ao marcharem em direção ao campo, encontraram mais de 30 vagões lotados com corpos em estado de decomposição avançado que haviam sido levados para Dachau. No início de maio de 1945, as forças norte-americanas libertaram os prisioneiros que haviam sido levados para a marcha da morte.
O número de prisioneiros em Dachau, de 1933 a 1945, ultrapassou 188.000, e o daqueles que morreram no campo e subcampos, entre janeiro de 1940 e maio de 1945, foi de pelo menos 28.000, número ao qual devem ser adicionados aqueles que pereceram ali entre 1933 e o final de 1939, bem como uma quantia desconhecida de prisioneiros não registrados. Provavelmente nunca se saberá ao certo o número total das vítimas de Dachau.
Uma das histórias que Sonja mais gosta de contar aos turistas de Dachau é sobre a tentativa de assassinato de Hitler por Georg Elser. Elser era um carpinteiro alemão com uma profunda simpatia pelas ideias comunistas. Pensando em como implementar o seu plano, Elser viajou até Munique em 8 de Novembro de 1938 para assistir ao discurso anual de Hitler no aniversário da Putsch da Cervejaria. Ele analisou a fraca segurança do evento como uma oportunidade favorável, mas também testemunhou os atos de violência contra os judeus durante a Noite dos Cristais. Esta experiência convenceu Elser que um líder capaz de incitar tal violência poderia levar a Alemanha a uma guerra maior e apenas a morte de Hitler poderia impedir que isso acontecesse. Em 1939, ele botou seu plano em prático e planejou assassinar Adolf Hitler colocando uma bomba-relógio em uma cervejaria que fazia fundos com o anfiteatro em que o Führer se apresentaria, em Munique, como todos os anos. Mas a sorte ajudou Hitler: ele deixou o anfiteatro cerca de 13 minutos antes do planejado – em seu lugar, oito pessoas morreram e mais de 60 ficaram feridas. Na mesma noite, Elser foi detido pela SS quando tentava atravessar a fronteira da Suíça. Depois de ser torturado até confessar seu crime, ele foi levado para Dachau. Ele foi duramente torturado pelos nazistas. Poucas semanas antes do término da guerra, em 1945, foi executado com um tiro. Em seu túmulo, foi escrita a frase: “Quis por meu feito prevenir derramamento de sangue maior”. Uma placa foi colocada em Königsbronn em sua memória.


“Eu quis pela minha ação prevenir uma matança maior”.
“Em memória de Johann Georg Elser, que passou a sua juventude em Königsbronn. Em 8 de Novembro de 1939, ele quis impedir o genocídio com uma tentativa de assassinar Hitler. Em 9 de Abril de 1945, Johann Georg Elser foi assassinado no Campo de Concentração de Dachau”.

Outra história que Sonja gosta de contar é sobre Hans e Sophie Scholl, dois irmãos, estudantes de medicina, que após um estágio num hospital da Alemanha Nazista, acabaram descobrindo toda a verdade sobre os campos de concentração e tratamento das minorias. Eles participavam do movimento Die Weisse Rose (A Rosa Branca) em Munique. O movimento produzia e distribuía panfletos contendo mensagens contra Hitler e o regime nazista. Sophie, seu irmão e mais um universitário, Christoph Probst, foram presos em 22 de fevereiro de 1943, depois que o reitor da Universidade de Munique os surpreendeu distribuindo esses panfletos no pátio da Universidade. A Gestapo os prendeu, os julgou em menos de quatro horas e os decapitou no mesmo dia. Desobedecendo ordens superiores, os carcereiros deixaram os jovens reencontrarem seus pais antes de encontrarem o trágico destino dos opositores ao nacional-socialismo, a morte. Os três são hoje tidos como heróis nacionais alemães. Entre fevereiro e outubro de 1943, foram mortos ainda mais 50 integrantes do movimento Rosa Branca.
Em 2005 foi produzido um filme alemão sobre a história de Sophie Scholl. Veja o trailer:

No final do dia, todos estavam vitrificados com que acabaram de ver. Uma coisa é ler esta história nos livros; outra coisa é ver com seus próprios olhos. Sonja disse que finalizaria seu tour na frente do monumento de um homem judeu, um prisioneiro que fora libertado pelos americanos, um símbolo aos sobreviventes. Geralmente as visitas acabam num outro monumento que fica no campo: uma grande caixa cheia de cinzas, simbolizado todas as vítimas cremadas, e abaixo, na caixa, as inscrições: “Nie wieder. Never Again. Jamais plus”. Nunca mais. Sonja disse que acha esse monumento estúpido. Como podemos dizer nunca mais, se o holocausto apenas mudou de nome. O que acontece hoje nos países africanos e asiáticos, as prisões de Guantánamo e tantas outras atrocidades que aconteceram após a Guerra também podems ser chamadas holocausto. Inclusive a ditadura militar no Brasil que silenciou de maneira extremamente cruel e violenta milhares de vítimas. Sonja agradeceu e pediu que não batêssemos palmas, em sinal de respeito às vítimas. No entanto, na estação de trem, de volta a Munique, a bela Sonja recebeu as merecidas palmas pelo excelente e emocionante tour.

Quer saber um pouco mais sobre o campo de Dachau? Assista aqui relatos de sobreviventes que estiveram em Dachau.

Dachau (1): vor dem Holocaust. Antes do Holocausto.

“Eu sinto muito pelos que morreram nos campos de concentração. Mas sinto muito mais pelos que sobreviveram. Sem família, sem lar, sem passado. Que vida dolorosa; que coragem que eles tiveram para recomeçar do zero”. Foi com essas palavras que a bela Sonja terminou o seu tour em Dachau. Naquela segunda-feira, no dia 28 de maio, fizemos um tour no campo de concentração de Dachau, uma cidadezinha nos arredores de Munique. A guia é simplesmente a mulher mais incrível que já conheci. Ela é uma americana que se chama Sonja, mas tem origem alemã, tem uns 31 anos e está em München para escrever sua tese de mestrado que envolve o tema Holocausto na Literatura Alemã. De forma simples e bastante honesta, Sonja nos contou a história do campo de concentração em Dachau desde sua origem, lá nos anos 20, quando o Partido Nacional Socialista ou Nazi surgiu na Alemanha.
Munique era a cidade preferida de Adolf Hilter e foi lá que o Partido Nacional Socialista (Nazi) foi criado. Alguns anos antes, em maio de 1913, Hitler, natural da Áustria, recebeu uma pequena herança do seu pai e mudou-se para Munique. Sempre desejara viver numa cidade alemã, talvez pelo desejo de se afastar do império multiétnico Austro-Húngaro e viver num país “racialmente” mais homogêneo. Adolf Hitler tornou-se o chefe do Partido Nazista em 29 de julho de 1921, porém o partido foi criado por trabalhadores de Munique já em 1918. Nos anos iniciais de Hitler no comando, o partido seguiu uma linha mais radical e revolucionária, mas a sua influência ficou confinada apenas a Baviera. O desastre para o partido aconteceu em 1923, quando o partido nazista tentou tomar o poder do governo da Baviera, no ato que ficou conhecido como o “Putsch da cervejaria”. O golpe de dois dias foi esmagado pelas autoridades de Munique, e diversos nazistas foram mortos no processo. Hitler e seus conselheiros principais foram julgados e presos por traição. As sentenças variaram de 12 a 18 meses, com Hitler sendo preso na prisão de Landsberg. Durante esse período, de 1923 a 1925, o partido nazista deixou de existir. No entanto, Hitler usou esse tempo para escrever seu livro Mein Kampf, detalhando como iria organizar seu retorno político quando fosse libertado da prisão. Após sua libertação em 1925, o partido nazista ressuscitou e novos membros juntaram-se trazendo consigo ideias anti-semitas e violentas. Nos anos subsequentes, durante as eleições, o partido nazista nunca conseguiu a maioria eleitoral, ficando sempre em segundo plano. No entanto, Hitler foi indicado Chanceler de uma coligação governamental pelo Presidente Paul von Hindenburg em janeiro de 1933. Em 30 de fevereiro de 1933, o edifício do parlamento, o Reichstag, sofreu um incêndio. Este incêndio foi rapidamente atribuído aos comunistas, e usado como desculpa pelos nazistas para fechar os escritórios do partido comunista alemão, banir sua imprensa e encarcerar seus líderes. Além disso, Hitler convenceu o Presidente von Hindenburg a assinar o “Decreto de Incêndio do Reichstag”, abolindo grande parte dos direitos da Constituição de 1919 da República de Weimar. Um outro decreto permitiu a detenção preventiva de todos os deputados comunistas, entre diversos outros membros do mundo político alemão. O principal meio através do qual Hitler se tornou ditador da Alemanha foi o ato Ermächtigungsgesetz (Ato de Habilitação ao Poder), que dava ao chanceler o poder de decretar o estado de emergência e de suspender as restrições legislativas ao seu poder como chefe do Executivo alemão. Para passar esse ato, Hitler organizou uma eleição para o Reichstag em março de 1933, com o intuito de formar uma maioria para adotar esse único ato, que colocava o poder inteiramente nas mãos do Chanceler. Em cinco cláusulas, o Ato de Habilitação ao Poder deu ao governo o direito de mudar a constituição e de aprovar leis sem a aprovação legislativa, ao Chanceler o direito de revisar a legislação, ao Gabinete o direito de passar acordos internacionais e uma renovação do decreto a cada 4 anos, dependente da continuação do governo. Em 14 de julho de 1933, os nazistas proibiram a formação de qualquer novo partido, e a Alemanha se tornou um estado de partido único. Em uma declaração de 23 de março de 1933, Hitler afirma que as duas principais igrejas da Alemanha eram os “fatores mais importantes” na manutenção do bem-estar alemão. Dali em diante, o que fora até então um episcopado crítico passou a apoiar o regime nazista abertamente e, com o acordo entre o Papa Pio XI e o Cardeal Pacelli, finalmente forneceu-lhe aceitação e reconhecimento internacionais. A Doutrina Nazista proclamava a superiodidade do que eles chamavam de Raça Ariana, destinada a dominar toda a Europa. Para os nazistas, a tarefa de expandir a supremacia ariana exigia a destruição dos países inimigos da Alemanha: externamente, as potências estrangeiras que impuseram o Tratado de Versalhes. Com o Tratado de Versalhes assinado em 1919, a Alemanha foi obrigada a aceitar toda a culpa por ter causado a Primeira Guerra Mundial e arcar com os custos de reparos e indenizações aos países aliados. Além do mais, a Alemanha era obrigada a devolver todas as suas colônias sobre os oceanos e na África. Indignada com tais medidas, a população estava muito descontente, e segundo muitos historiadores, isso foi um fator decisivo para que a maior parte do país apoiasse os nazistas com seus discursos acalorados. Internamente, os judeus eram inimigos do Estado, acusados de conspirar contra os interesses do povo alemão. Para tanto, os nazistas procuram explorar o sentimemto nacional do povo alemão, abalado com os resultados da guerra. Além disso, a estrutura do partido, fortemente militrizada, simbolizava a ideia de ordem num país desorganizado política, social e economicamente. Entre 1934 e 1939, o partido nazista iniciou uma série de medidas para juntar o partido nazista e o governo alemão numa única entidade. Foi também nesse período que a visão racial nazista foi transferida para a prática legal, com a Alemanha tornando-se um estado anti-semita e racial após a promulgação das Leis de Nuremberg em 1935. O primeiro ato de Hitler para juntar o partido nazista e o governo alemão aconteceu com a morte do presidente Paul von Hindenburg, em agosto de 1934. Três horas antes da morte de Hindenburg, o governo de Hitler promulgou uma lei que prescrevia que o posto de presidente seria unido ao de chanceler, e que Hitler seria desde então o Führer e o Reichkanzler (Chanceler) da Alemanha. Com este ato, Hitler fez de si mesmo o chefe de Estado, o chefe do governo e o presidente do partido nazista.
E eis que em 1938 o partido nazista começa a colocar em prática as suas ideias racistas contra os judeus.
Aquela que ficaria conhecida no próprio jargão nazista como a “noite dos cristais quebrados” marcou o início do Holocausto, que causou a morte de seis milhões de judeus na Europa até o final da Segunda Guerra Mundial.
A “Noite dos Cristais” (Kristallnacht ou Reichspogromnacht), de 9 para 10 de novembro de 1938, em toda a Alemanha e Áustria, foi marcada pela destruição de símbolos judaicos. Sinagogas, casas comerciais e residências de judeus foram invadidas e seus pertences destruídos. Milhares foram torturados, mortos ou deportados para campos de concentração. A justificativa usada pelos nazistas foi o assassinato do então diplomata alemão em Paris, Ernst von Rath, pelo jovem Herschel Grynszpan, de 17 anos, dois dias antes. A perseguição nazista à comunidade judaica alemã já havia começado em abril de 1933, com a convocação aos cidadãos a boicotarem estabelecimentos pertencentes a judeus. Mais tarde, foram proibidos de freqüentar estabelecimentos públicos, inclusive hospitais. No outono europeu de 1935, a perseguição aos judeus, apontados como “inimigos dos alemães”, atingiu outro ponto alto com a chamada “Legislação Racista de Nuremberg”. Enquanto o resto do mundo parecia não levar o genocídio a sério, Hitler via confirmada sua política de limpeza étnica. Uma lei de 15 de novembro de 1935 havia proibido os casamentos e condenado as relações extraconjugais entre judeus e não-judeus. Havia ainda a proibição de que não-judeus fizessem serviços domésticos para famílias judaicas e que um judeu hasteasse a bandeira nazista. Ainda em 1938, as crianças judias foram expulsas das escolas e foi decretada a expropriação compulsória de todas as lojas, indústrias e estabelecimentos comerciais pertencentes a judeus. Em 1º de janeiro de 1939, foi adicionado obrigatoriamente aos documentos de judeus o nome Israel para homens e Sarah para mulheres. A proporção da brutalidade da Noite dos Cristais de 9 de novembro foi indescritível. Hermann Göring, chefe da Polícia Nazista, lamentou “as grandes perdas materiais” daquele 9 de novembro de 1938, acrescentando: “Preferia que tivessem assassinado 200 judeus em vez de destruir tantos objetos de valor!”. Numa única noite, 91 judeus foram mortos e cerca de 25.000 a 30.000 foram presos e levados para campos de concentração. 7500 lojas judaicas e 1600 sinagogas foram reduzidas a escombros. As ordens determinavam que os SA deviam estar vestidos à paisana, a fim que o movimento parecesse ser um movimento espontâneo de uma população furiosa contra os judeus. Na verdade, as reações da população foram pouco favoráveis, pois os alemães não apreciam que se ataque ou tome a propriedade alheia. Os incêndios também chocaram uma parte da população, mas não o fato de que os judeus tivessem sido atacados fisicamente. A alta autoridade nazista cobrou uma multa aos judeus de um bilhão de marcos pelas desordens e prejuízos dos quais eles foram as vítimas. Era o início do Holocausto.
Em 1 de setembro de 1939, as Forças Armadas alemãs deram início a invasão à Polônia, também conhecida como Operação Fall Weiss marcando o início da Segunda Guerra Mundial. A invasão culminaria na dominação completa do país em 6 de outubro do mesmo ano. A operação foi iniciada em resposta a um suposto ataque polonês a uma estação de rádio, o que depois foi comprovado como um ardil dos nazistas para justificar a invasão. Durante a operação, em 17 de setembro, a União Soviética, seguindo uma cláusula secreta do Pacto Molotov-Ribbentrop, também declarou guerra a Polônia e deu início a Invasão Soviética da Polônia na parte leste do país. Em 3 de setembro, em resposta as hostilidades, França e Reino Unido, seguidos por Canadá, Nova Zelândia e Austrália, entre outros, declararam guerra contra a Alemanha Nazi.
As operações começaram aproximadamente ás 4h45min do dia 1º, com o encouraçado alemão SMS Schleswig-Holstein abrindo fogo contra as guarnições polonesas da Westerplatte, península localizada em Danzig, hoje Gdansk. Horas depois, o Grupo de Exércitos Norte e Sul iniciaram a invasão por terra.
Empregando a tática da Guerra Relâmpago com tropas blindadas e mecanizadas, juntamente com inovadoras técnicas de combate e equipamentos modernos, os alemães rapidamente quebraram as linhas defensivas dos poloneses, alcançando o rio Vístula já em 3 de setembro, e iniciando o cerco de Varsóvia no dia 10. Ao sul, com o Grupo de Exércitos Sul, comandado por Gerd von Rundstedt, no dia 3, as tropas de Walter von Reichenau já se encontravam na retaguarda de Cracóvia, e cinco dias depois, tendo percorrido 140 milhas em uma semana, se encontravam a 10 km de Varsóvia.
A essa altura, todos os planos de defesa poloneses haviam falhado, basicamente pela mobilização das tropas alemães e pela incapacidade do exército polonês em recuar estrategicamente, muito por causa do nível de obsolência do seu exército e da mentalidade de seus comandantes. Ainda que algum plano defensivo lograsse sucesso, ele falharia em se proteger da inesperada invasão russa pelo leste. No cômputo geral, a invasão foi um teste e uma importante lição para os alemães, que ali testaram suas forças, assimilaram os resultados e corrigiram os erros. Entre outubro de 1939 e maio de 1940, as Forças Armadas alemãs passaram por uma reformulação completa, que tornaria ainda mais eficiente a Blitzkrieg (Guerra Relâmpago). A Segunda Grande Guerra estava apenas começando.

CONTINUA (…)

Deutsche Demokratische Republik. República Democrática Alemã.

Hoje (01.03.2102) visitamos o Zeitgeschichtliches Forum, que fica na Grimmaische Strasse em frente a Alte Börse. Nossa visita foi conduzida por uma guia (linda e simpática, diga-se de passagem), que nos apresentou a história da Alemanha entre 1945, após o fim da 2ª Guerra Mundial, e 1989, com a queda do Muro de Berlim.
A visita começou com esta imagem abaixo, onde podemos observar, da esquerda para a direita, o primeiro-ministro britânico Winston Churchill, o presidente americano Harry Truman e o líder da União Soviética Josef Stalin. Até aí tudo bem, uma vez que as três principais potências vencedoras da 2ª Guerra foram Inglaterra, EUA e União Soviética, e neste dia os seus representantes reuniram-se nos arredores de Berlim para discutir o futuro da Alemanha, afim de garantir que nunca mais uma guerra de tais proporções voltasse a acontecer. Podemos perceber um detalhe bastante curioso ao repararmos com atenção a foto: Churchill e Truman estão muito próximos, num sinal visível de cumplicidade, enquanto Stalin permanece relativamente mais afastado. Não houve intenção, foi um fato totalmente casual, mas há quem diga que neste dia já estava muito claro o que viria acontecer com a Alemanha: a divisão do país em duas partes. Outra curiosidade é o fato da França ter ficado de fora da coletiva de imprensa, uma vez que estas três potências se auto denominaram as mais importantes. A Alemanha foi dividada inicialmente em quatro partes entre EUA, Inglaterra, França e União Soviética. Anos mais tarde, com a igualde de ideias, França, EUA e Inglaterra acabaram tornando-se uma só e a Alemanha ficou dividida em duas partes, sendo que o lado ocidental (West) era controlado majoritariamente pelos EUA, e o lado oriental (Ost) era governado pela União Soviética. Por causa disso foram criados dois estados: o capitalista BDR (Bundesdemokatrische Republik) e o socialista DDR (Deutsche Demokatrische Republik). Berlim, por sua vez, foi dividida em qautro partes: a zona americana, a francesa, a britânica e a soviética. Berlim continuou sendo a capital da Alemanha Oriental, enquanto que capital da BDR foi transferida para Bonn.

Os primeiros anos do pós-guerra, o socialismo foi visto como algo positivo pela população, que naquele momento não dispunha de nada. O modelo de divisão igualitária de bens e terras, e o fortalecimento das indústrias agradou a população. No entanto, não demorou muito para que as primeiras manifestações contra o regime da DDR surgissem. Em Berlin, no dia 17 de junho de 1953 aconteceu a primeira grande demonstração pública de insatisfação contra o regime. Pela manhã foi uma manifestação pacífica, mas a tarde o exército agiu e atacou agressivamente os manifestantes. Reprimida pelo regime socialista, a população se viu acuada e não teve outra saída a não ser fugir. As fugas começaram a tornar-se frequentes, com pessoas saindo do lado oriental para o lado ocidental. Até aquele momento não havia o muro de Berlin e as pessoas podiam circular livremente pelos dois lados de Berlim. Tendo em vista a fuga em massa da população (cerca de 2 milhões de pessoas fugiram para a BDR), a DDR foi obrigada a construir incialmente uma barreira de arame farpado, com vigilância 24 h dos soldados. Mesmo assim, muitos conseguiam pular, como é o caso desse soldado abaixo, cuja foto ficou conhecida mundialmente dias antes da construção do muro de Berlim.

Em agosto de 1961 o murou começou a ser erguido de repente, de uma hora para outra. Era domingo, estrategicamente escolhido por não ter muita circulação de pessoas nas ruas, que poderiam transformar o plano numa situação caótica. Os habitantes olhavam estarrecidos e não acreditavam que aquilo estava acontecendo. Muitas famílias foram separadas naquele dia, amigos ficaram do outro lado. Nos anos que se seguiram, atravessar o Muro virou a obsessão de muitas pessoas. Agora não bastava apenas pular a barreira, era preciso ser criativo. Muitos tentaram cavar túneis subterrâneos, outros atravessar o ar com balões, outros tentavam saltar o muro. Um caso que achei curioso foi o de três irmãos que construíram um pequeno avião e conseguiram fugir para Berlim Ocidental. O mais engraçado é que três meses depois o muro seria derrubado, em 1989.
A vida na DDR era complicada. A população não tinha muito dinheiro e não havia muitas opções de produtos nas lojas e mercados. Por causa disso, virou moda naquela época pessoas da Alemanha Ocidental enviarem pacotes contendo produtos que iam desde cosméticos, de higiene pessoal até alimentos, como café, laranjas e chocolates, para conhecidos ou familiares da Alemanha Oriental. Quando as pessoas abriam estes pacotes, um cheiro muito bom exalava do interior das embalagens. “Era como sentir o cheiro do Natal”, diziam.
A DDR não dispunha de dinheiro como as demais potências do lado Ocidental, portanto, durante a época da DDR, muitas cidades que foram destruídas pela Guerra, como Berlim, Dresden e Halle, permaneceram em ruínas. A solução encontrada pelo regime socialista foi construir moradias baratas e padronizadas para a população em outras regiões da cidade, surgindo então as “Neustadt” (cidade nova), comum em praticamente todas as cidades da Alemanha Oriental. Essas moradias além de serem economicamente acessíveis, tinham outras vantagens como aquecimento a gás (as casas antigas precisavam de carvão) e banheiro dentro do apartamento (nas casas antigas, os banheiros ficavam em outros andares). Aqui em Leipzig é muito comum esse tipo de moradia, um símbolo da construção em massa da DDR.
Os artistas foram os que mais sofreram repressão durante a DDR. Muitos que tentavam ir contra o regime, eram expuslos e expatriados, tendo que deixar para trás seus familiares.
Cansados desse sistema, os jovens começaram a organizar uma série de protestos passivos contra o regime socialista. Leipzig foi crucial para os protestos, que em 09 de novembro de 1989 culminou com a queda do Muro de Berlim. É emocionante ver os vídeos das pessoas atravessando a fronteira, reencontrando seus amigos e familiares. Foi uma grande festa naquele dia. Os alemães ocidentais e orientais abraçavam-se, soltaram foguetes, brindaram com champagne. Era uma nova era que acabara de começar. Um fato curioso é que na Alemanha Oriental existiam apenas dois tipos de carros: o Trabant e um outro que não lembro, que tinham a carcaça feita de plástico. Ao cair o muro, as pessoas do lado oriental se surpreenderam ao ver que seus carros eram muito ultrapassados em relação ao lado ocidental. Muitos abandonavam seus Trabant na rua, o que acabou sendo um problema para a Alemanha na década de 1990, pois o acúmulo desse lixo comprometia a meio ambiente. A solução encontrada foi produzir um fungo geneticamente moficiado para degradar esse tipo de plástico. Mas de qualquer modo, foi algo que marcou a data e até hoje existem muitos colecionadores e simpatizantes do Trabant.
Apesar do muro ter caído em 1989, a reunificação da Alemanha ocorreu oficialmente em 03 de outubro de 1990, que é considerado feriado nacional. Muitos não concordam até hoje (inclusive eu!) com a escolha da data, pois acham que 09 de novembro deveria ser a data mais importante do país.
Fiquei muito interessado neste tema e quero agora ler alguns livros a respeito da DDR. Para mim, a história da Alemanha no século 20, desde a 1ª Guerra Mundial, a República de Weimar, Hitler e a 2ª Guerra Mundial, até a DDR, foi a época mais rica historicamente.
Quem quiser conhecer um pouco mais sobre o perído da DDR, recomendo assistir o filme “Das Leben der anderen” (A vida dos outros), que ganhou o Oscar de melhor filme estrangeiro em 2008.

Dresden, der deutsche Phönix. A Fênix alemã. (1)

Dresden, que está situada às margens do rio Elba, é a capital do estado de Sachsen (Saxônia) e tem pouco mais de 500 mil habitantes. Dresden era conhecida como a caixa de jóias, devido ao estilo barroco e rococó das construções do centro da cidade. A cidade é conhecida pela sua riqueza artística, cultural e arquitetônica, mas a sua fama se deve mais a sua história recente, principalmente a questão envolvendo o bombardeio de Dresden durante a 2ª Guerra Mundial, há 67 anos atrás.
Dresden não tinha nenhuma função capital no Estado Nazista. Era uma cidade sem maiores bases militares. Talvez sua maior importância para a Alemanha durante a Guerra, era ter uma fábrica de armamentos, uma estação de trem estratégica (não tanto quanto a Hauptbanhof de Leipzig, talvez a mais importante da Alemanha) pela qual passavam armas e judeus destinados aos campos de concentração e, por fim, uma cidade de refugiados. Por ser uma cidade nunca antes bombardeada e não estar envolvida na Guerra, os refugiados e feridos se escondiam em Dresden para se recuperar, acreditando que estariam seguros, longe do front. Em 1945, três meses antes do fim da Guerra, à noite, tocam as sirenes. Dresden seria bombardeada pelos americanos a partir de um acordo firmado com os ingleses. O que aconteceu a seguir foi devastador: ataques massivos por toda a cidade tranformou tudo em fogo e ruínas. Quando as pessoas não morriam pelos bombardeios, morriam sufocadas, mesmo na rua, pelo calor das chamas por toda a parte. O calor era tão intenso que o ferro das estruturas e o asfalto derretiam em rios de lava.
O bombardeio de Dresden foi um ataque militar efetuado pelos aliados da Força Aérea Real Britânica (RAF) e a Força Aérea do Exército dos EUA (USAAF) entre 13 e 15 de fevereiro de 1945. Em quatro ataques-surpresa, 1.300 bombardeiros pesados lançaram mais de 3.900 toneladas de dispositivos incendiários e bombas altamente explosivas na capital barroca de Sachsen. A tempestade de fogo resultante destruiu 39 quilômetros quadrados do centro da cidade.
Um relatório da Força Aérea dos EUA defendeu a operação, justificando que Dresden era um alvo militar, industrial e centro importante de transportes e comunicação em apoio aos esforços nazistas. Em contrapartida, diversos pesquisadores argumentaram que nem toda a infrainstrutura comunicacional, como pontes, foram de fato alvo do bombardeio, assim como extensas áreas industriais distantes do centro da cidade. Alega-se que Dresden era um marco cultural de pouca ou nenhuma significância militar, uma “Florença do Elba”, como era conhecida, e que os ataques foram um bombardeio indiscriminado e desproporcional aos comensuráveis ganhos militares. Provavelmente o bombardeio uma foi reposta aos ataques de outras cidades européias por parte da Alemanha, como Guernica na Espanha, usando a política do “bateu, levou”. Há quem diga que neste dia, durante o ataque a Dresden, começou a Guerra Fria, numa demonstração de poder por parte dos EUA a União Soviética. Uma investigação independente encomendada pelo conselho municipal de Dresden em 2010 chegou a um total mínimo de 22.700 vítimas, com um número máximo de mortos em torno de 25.000 pessoas.
Em comparação direta com o bombardeio de Hamburgo em 1943, que criou uma das maiores tempestades de fogo provocadas forças aliadas, matando aproximadamente 50.000 civis e destruíndo praticamente toda a cidade, e o bombardeio de Pforzheim em 1945, que matou aproximadamente 18.000 civis, os ataques aéreos contra Dresden não podem ser considerados os mais graves da 2ª Guerra Mundial. No entanto, eles continuam conhecidos como um dos piores exemplos de sacrifício civil provocado por bombardeio estratégico, ocupando lugar de destaque entre as causas célebres morais da 2ª Guerra.
O impacto do bombardeio e 40 anos de desenvolvimento durante a era comunista da Alemanha Oriental mudaram consideravelmente a cara da cidade. Algumas restaurações têm ajudado a reconstruir partes do centro histórico, incluindo a Katholische Hofkirche, o Semper Oper e a Dresdner Frauenkirche. Desde a reunificação alemã em 1990, Dresden vem ganhando novamente importância como um dos centros cultural, educacional e político-econômico da Alemanha.

Neste link, você encontra a reportagem original da Revista Veja de fevereiro de 1945 sobre o bombardeio de Dresden.

Neste outro link, recomendo a leitura do post sobre Dresden do blog Doktorarbeitfest. Muito interessante!