München “mucho loca”. Munique “muito louca”.

Enquanto dia 28 de maio é dia das bruxas no Brasil (rs), aqui na Alemanha é feriado. Eles celebram aqui o Pfings – Pfingssonntag e Pfingsmontag – ou Pentecostes. Para muitos o feriado tem um significado religioso, mas para mim e para a maioria da população significa feriadão. Na sexta-feira (25 de maio) embarquei as 16:31 h num trem com destino a München. Eu e Gergely já havíamos combinado esta viagem em Göttingen, quando nos tornamos amigos no Encontro dos Bolsistas do DAAD. Chegamos depois das 22:00 h na cidade e fomos direto para o Hostel. Nossa reserva era para um quarto de oito camas na primeira noite, mas por um descuido da recepcionista ficamos num quarto de quatro camas. Ainda naquele dia resolvemos dar uma volta noturna pela cidade, conhecer o centro. Já deu para perceber que München é uma cidade diferente. Na manhã seguinte fomos conhecer o castelo de Neuschwanstein, a 2 h de München, mas esta história eu conto em outro post. No domingo fizemos um tour guiado pelo centro histórico da cidade. O guia era britânico e se chamava Tom. Não consegui entender muito bem seu inglês, por causa daquele sotaque carregado, mas me esforcei para compreender o máximo. O tour começou na Marienplatz em frente a Neues Rathaus. München foi fundada em 1158. Antes dessa data não havia nada na região, apenas um monastério e seus monges. O nome München vêm de “Munichen”, que no antigo alemão padrão significava “monges”, no caso monges da Ordem dos Beneditinos, que fundaram a cidade. Estes monges desde aquela época produziam cerveja, o que explica em parte a fama dos moradores de München serem apaixonados pela bebida. O monumento no centro da Marienplatz, a Mairensäule (Coluna de Maria), foi construído pelo rei Maximilian em 1638 como um agradecimento. Maximilian prometeu que se Munique fosse poupada da destruição na Guerra dos Trinta Anos construiria um monumento a Virgem Maria. Munique não foi destruída, embora fora ocupada por tropas suíças. As 11:00 h (e também as 12:00 h) em ponto assistimos o Glockenspiel em movimento. O Glockenspiel ou Sino de Brinquedo, numa tradução livre, é uma das coisas mais lindas que eu já vi aqui na Alemanha. É a segunda atração mais vista em toda a Europa, só perdendo para o Relógio Astronômico de Praga. Na primeira metade do Glockenspiel é encenado o casamento do duque local Wilhelm V, que foi o fundador do famoso Biergarten Hofbräuhaus, com Renata de Lorraine. Em honra à felicidade do casal há uma batalha entre cavaleiros montados em cavalos representando a Bavária e Lothringen, sendo que o cavaleiro da Bavária sempre vence a batalha. Na parte de baixo do sino é apresentada a Schäfflertanz. De acordo com um mito, 1517 foi um ano em que a praga assolou Munique. Naquele ano os dançarinos foram às ruas para trazer vitalidade àquele clima de medo. Os dançarinos permaneceram leais ao Duque, e sua dança simbolizou perseverança e lealdade às autoridades em tempos difíceis.

Em seguida seguimos para o Spielmuseum, que antigamente foi a Altes Rathaus, construída em 1474, e que foi totalmente renovada após a sua destruição na 2ª Guerra Mundial. No passado, foi o prédio preferido de Hitler em München, onde ele se encontrava com seus aliados para discutir as questões políticas do seu partido. No lado de fora, a estátua de Julieta (da história de Romeo e Julieta), que foi um presente da cidade de Verona. Dizem que passar a mão no busto de Julieta traz sorte. Pelas marcas de mão é possível observar que os turistas acreditam nisso. Ainda na região central, visitamos a Frauenkirche (Igreja de Nossa Senhora) que foi finalizada em 1494. As torres, conhecidas como cúpulas em cebola, entretanto, foram adicionadas apenas após 1525. A igreja é um representante da arquitetura gótica e também foi severamente danificada na Guerra.
Em Bayern (Bavária) é muito comum notar a presença dos Biergarten. Em cada esquina é possível encontrar um. Biegarten são enormes áreas cheias de mesas e bancos de madeira onde as pessoas se reúnem para beber cerveja. Essa tradição da cerveja vem desde a Idade Média, lá com os monges, que fabricavam a bebida nos monastérios. A água na Europa era de péssima qualidade, suja, contaminada com todo tipo de germes. A população bebia cerveja ao invés de água, uma vez que o teor alcoólico era capaz de esterilizar a bebida. Um desses Biergartens é o Hofbräuhaus, que na verdade também é uma cervejaria e tem mais de 400 anos. Ele foi palco de várias celebrações nos tempos dos reis. O significado da Hofbräuhaus de Munique vai mais longe do se possa imaginar. Sua construção, no fim do século 16, salvou as finanças da Bavária. Na época, os duques da região importavam sua cerveja da pequena cidade de Einbeck, na Baixa Saxônia, e estavam cronicamente falidos. A corte apreciava até demais aquele “suco de cevada”. Segundo representantes do Hofbräuhaus, os nobres mamaram os cofres públicos até a ruína. A insaciável sede da corte levou o duque Guilherme V a construir uma cervejaria própria. Inicialmente, a produção era feita no chamado Alter Hof, mas a partir de 1607 passou ao local hoje denominado Am Platzl. A cerveja produzida na Hofbräuhaus Am Platzl foi apreciada desde o início, e logo começou a colecionar histórias sensacionais. Reza a lenda que desempenhou um papel fundamental na Guerra dos 30 Anos, conseguindo apaziguar os suecos que ameaçavam invadir a cidade. Em 1632, o exército sueco estava diante dos portões de Munique e exigia uma fortuna para poupar a cidade. O pagamento foi feito em moeda natural: os suecos receberam mil baldes de cerveja da Hofbräuhaus, o equivalente a uns 60 mil litros. Como se matar a sede de nobres e servir de moeda de troca na guerra não bastasse, a cerveja mais uma vez salvou o dia quando a ópera da cidade pegou fogo, em 1823. Era inverno e a água para extinguir incêndios estava congelada. A solução foi apagar o fogo com cerveja. E esta cerveja veio da Hofbräuhaus. Um fato interessante é que somente os homens podiam entrar no local e beber, enquanto que mulheres eram apenas garçonetes.
Em seguida fomos ao Residenz Schloss, residência oficial de Ludwig I, pai de Maximilian II e avô de Ludwig II, o rei louco da Bavária. O reinado de Ludwig I foi fortemente afetado por seu entusiasmo pelas artes e as mulheres e pela falta de limites. Apesar de incentivar a industrialização na Bavária e investir em ferrovias, conectando o país e favorecendo a economia, durante as revoluções de 1848, o rei enfrentou crescentes protestos e manifestações por parte dos estudantes e da classe média. O Gabinete se voltou contra ele. Ludwig abdicou o trono em favor de seu filho mais velho, Maximiliano II.
O tour terminou na Odeonplatz, em frente a Theatinerkirche, a igreja mais bonita que já vi até agora e onde está enterrado o rei Maximilian II. Dali tentamos ir ao Deutsches Museum, mas ele fecharia as 17:00 h e já eram quase 16:00h. Resolvemos ir até o Olympia Park e subir a Olympia turm. A vista panorâmica da cidade, a mais de 200 m de altura, é incrível. Até os Alpes é possível notar ao longe. A noite, jantamos no Hofbräuhaus, com direito a legítima cerveja da Bavária. Antes de chegarmos à cervejaria, nos deparamos acidentalmente com uma banda na Marienplatz que apresentava seu trabalho gratuitamente. É muito comum aqui na Europa encontrar essas bandas alternativas que tocam música nas calçadas. O grupo chama-se Konnexion Balkon e toca música clássica de um modo diferente. É uma forma divertida de ouvir música clássica e instrumental. Ficamos lá no meio da multidão ouvindo o grupo se apresentar. Todos ali na praça ficaram encantados. Esse é o link do site do Konnexion Balkon, para quem tiver interesse.
Na segunda visitamos o campo de concentração em Dachau, que também será comentado em outro post. Na terça-feira de manhã visitamos o Deutsches Museum, o maior museu da Alemanha e um dos maiores da Europa. O museu é dividio em categorias e apresenta tudo – absolutamente tudo – sobre ciência. Achei muito interessante, mas muito grande. Gastamos 5 horas lá dentro. E a tarde voltamos para a nossa querida vila Halle.
Ao final dos três dias em que ficamos em Munique pude observar que de fato o povo de lá é diferente do resto dos alemães. Levar a vida como um “bon vivant” é o estilo dos bávaros, que têm fama de rústicos ou “do campo”, como diríamos em portugês. Mas na verdade, o povo de Munique é muito receptivo e atencioso com os estrangeiros. Não há pressa para nada, mas tudo se encaixa e funciona perfeitamente. Não há nervosismo para nada, e no final as coisas se resolvem. Não há impaciência, e depois de uma pergunta você sabe aonde ir ou simplesmente é levado aonde quer ir. Falar inglês não é um problema, assim como prestar informações nas calçadas, nas estações de metrô, nas lojas ou nos bares. A cidade é apaixonada pelo Bayern de Munique, o clube de futebol, e tamanha paixão é observada pelas garrafas de cerveja quebradas na rua e pelas pessoas bêbadas. E isso não acontece apenas em dias de jogos, mas praticamente todo dia, principalmente em fins de semana. Me assustei em ver homens e mulheres completamente bêbados. E sem brincadeira, não encontramos ninguém sóbrio! Fico imaginando como deve ser na Oktoberfest, onde 6 milhões de litros de cerveja são consumidos por dia. Os números de internações hospitalares por causa de coma alcoólico são astronômicos, assim como o número de carteiras, documentos, passaportes, chaves de carros e outros objetos pessoais que são perdidos nos dias da festa. Até crianças são perdidas e filas de crianças procurando seus pais nos postos policiais são gigantescas. Esse é o jeito bávaro de comemorar! Adorei Munique, a minha segunda cidade alemã favorita, atrás apenas de Berlim.

Clique aqui para ver as fotos de München!

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