Tag 14: Auschwitz.

Jamais me esquecerei do dia em que visitei o Memorial Auschwitz-Birkenau, a 200 km de Cracóvia. O dia estava ensolarado, o céu de um azul límpido. Ao se aproximar do emblemático portão de entrada, com os trilhos do trem ao meio, emudeci. Calei-me ao constatar que aquilo tudo ali realmente existiu, que era real. Quando a gente lê nos livros ou vê nos filmes, aquilo tudo soa tão fantasioso, tão brutal, que a gente acaba não acreditando. Por isso, como curioso por esta parte da história que sou, visitar Auschwitz sempre foi uma das minhas prioridades na Europa. Lá dentro, silêncio. Não havia barulho, não havia sons. Havia paz lá dentro, finalmente. É uma grande contradição: um lugar outrora movido pelo ódio e pela intolerância, hoje transmite uma imensa paz. As cercas de arame farpado estão por todo lado, delimitando as áreas das barracas. Apesar da grande maioria estar em ruínas, algumas barracas ainda estão lá, testemunhas oculares dos horrores do Holocausto. A barraca onde eram feitos os experimentos médicos conduzidos por Mengele continua de pé. A grama é extremamente verde, contrastando com o marrom das cabanas. Alguns “banheiros” estão preservados, mas não é possível entrar. As latrinas – vários buracos no meio de uma coluna comprida – eram usadas pelos prisioneiros, assim como canaletas onde havia água para lavarem-se. Divergindo sobre questões históricas, Gergely e eu discutimos feio. Em alemão, levantamos o tom para defender a nossa opinião. Tive a impressão de que ele estava romantizando ou deturpando os fatos históricos, ao referir-se aos soldados nazistas com os termos “humanidade” e “respeito”. Ezster não se envolveu. Entramos numa das barracas e fiquei chocado em ver com meus próprios olhos às condições que os prisioneiros eram submetidos. Chão batido, camas de madeira apenas com um bocado de palha e um forno usado como aquecedor. Segundo a inesquecível Sonja de Dachau, no inverno os aquecedores não eram ligados, numa demonstração de que os prisioneiros não eram “gente” para ter esse privilégio. O forno estava ali, mas eles não poderiam usá-lo. Frases irônicas e de repreensão como: “Fique em silêncio” estavam pintados nas vigas de madeira e paredes. Nos barracões apertados eram acomodados entre 400 e 800 pessoas, dependendo do tipo de instalação, uma situação desumana. Não há mais o crematório; ele foi totalmente destruído pelos próprios nazistas no final de 1944, quando eles já sabiam que as chances de vencer a guerra eram mínimas, numa tentativa de encobrir as provas dos horrores cometidos. No barracão de seleção, que continua nos fundos do campo Birkenau, os prisioneiros despiam-se e eram lavados com jatos de água gelada, e permaneciam nús durante horas sobre o piso de cimento, até terem seu destino definido pelos soldados alemães. Naquele dia havia uma missa rezada em alemão, polonês e latim, em homenagem às vítimas do Holocausto. Sentamos na grande praça onde ficava o crematório e ouvimos um pouco da missa. Nunca havia experimentado tanta paz. Foi uma experiência inusitada para mim, que estava prevendo que seria muito difícil entrar lá. Num lugar que vivenciou as mais baixas e cruéis demonstrações de até onde o ser humano pode chegar, é possível sentir-se sereno, embora para qualquer lugar que se olhe, evidências do genocídio são encontradas. O mais importante é não esquecer do que aconteceu lá dentro, para que tamanho crime não se repita. É preciso ver aquilo ali de perto, deixar-se tocar, sofrer com as provas chocantes (sapatos, cabelos raspados, latas do gás asfixiante) e dos números gigantescos do Holocausto. Jamais esquecer.

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