Beschimpfen auf Deustch! Xingar em alemão!

Compartilho um artigo publicado pela Deustche Welle sobre a forma como os alemães xingam, optando sempre por xingamentos escatológicos. Até nisso os alemães são diferentes!

Alemães xingam diferente do resto da Europa

“O sujo e o úmido – Pequena linguística da linguagem vulgar”, de Hans-Martin Gauger, especula sobre fixação de insultos germânicos no âmbito fecal, enquanto o sexual é regra. E argumenta: talvez os alemães tenham razão.
“Verdammte Scheisse!” e “Leck mich doch am Arsch!” são possivelmente os impropérios mais populares entre os alemães. No entanto, no resto do mundo não servem de grande coisa. Que efeito tem, para ouvidos brasileiros, “Maldita merda”, ou “Vem lamber a minha bunda”?
Mesmo dentro do continente europeu, as diferenças são marcantes. Espanhóis, italianos, franceses e também ingleses costumam empregar palavrões que causam espanto nos países germanófonos por serem, em geral, de fundo sexual, enquanto os alemães se fixam mais nas imagens fecais. O assunto foi pesquisado pelo filólogo Hans-Martin Gauger. O renomado romanista, membro da Academia Alemã de Língua e Poesia, estudou minuciosamente onde e como se insulta na Europa. O resultado é surpreendente: os alemães xingam diferente dos outros.

O caso Zidane
“Interessou-me o fato de a grande maioria dos europeus apelar para a esfera sexual ao expressar algo negativo, ao ofender, maldizer, insultar.” Sobretudo no Sul, quase nenhuma ofensa deixa de evocar o contexto sexual.
Gauger cita um conhecido exemplo recente. Na Copa do Mundo de 2006, após uma falta, o craque da seleção francesa Zinedine Zidane castigou seu colega italiano Marco Materazzi com uma brutal cabeçada, em pleno campo. Para os alemães, o motivo da agressão pareceu desconcertante.
E, no entanto, Materazzi ofendera Zidane seriamente. À provocação do francês – “Se você gosta tanto assim da minha camisa, pode ficar com ela depois” – ele respondera: “Eu prefiro a piranha da tua irmã”.
Hans-Martin Gauger analisa: “Primeiro, foi uma ofensa pesada, depois um insulto, com dupla referência sexual: Materazzi disse que queria a irmã do outro, e ainda por cima a chamou de ‘piranha'”. Mais tarde, o italiano se justificou: afinal, só dissera a primeira coisa que viria à cabeça de qualquer um, numa situação assim.
“Foi isso o que veio à cabeça dele, o italiano, o ‘latino’; a nós, jamais ocorreria algo assim, nem como primeira, nem como segunda opção”, comenta o linguista. Um alemão, nessas circunstâncias, teria dito algo como “Verpiss Dich” ou “Hau ab Du Arschloch” (aproximadamente: “Vai mijar em outro poste” e “Vai te catar, cara de cu”).

Especificidade alemã
Essas diferenças no jeito de insultar são também observáveis em relação ao inglês. “Num dicionário normal, to fuck é traduzido como ‘foder, copular’. Esse é o significado direto, mas não o coloquial. No uso figurado, costuma-se traduzir ‘Scheisse’ [merda] por ‘fuck it’; e, por ‘fuck you’ e ‘get fucked’, ‘Du Scheisskerl’ e ‘Leck mich am Arsch’ [Cara de merda, Vem lamber a minha bunda].”
“Quando, num verbete de dicionário, se compara os originais ingleses com os equivalentes alemães, nota-se que quase sempre uma expressão sexual no inglês corresponde a uma escatológica no alemão. Ou, como se diria em alemão, há uma correspondência de merda”, brinca Gauger.
O linguista alemão fala de uma “especificidade germânica”. Ou, antes, de uma especificidade dos países germanófonos, já que também fez constatações comparáveis na Áustria e na Suíça de idioma alemão.
Em contrapartida, quase todo resto da Europa é “sexualmente orientado”. Isso também se aplica ao Leste, em especial à língua russa, aos idiomas eslavos, mas também ao turco. Gauger só encontrou umas poucas exceções. Entre os suecos, por exemplo, as ofensas trazem um componente fortemente religioso.
Hans-Martin Gauger reuniu essas e outras observações em seu livro Das Schmutzige und das Feuchte – Kleine Linguistik der vulgären Sprache (O sujo e o úmido – Pequena linguística da linguagem vulgar), documentando-as através de uma série de exemplos.

Escatológico versus sexual
No entanto, em entrevista à DW, o filólogo não sabe ao que atribuir o componente fortemente religioso das ofensas típicas dos suecos. As tentativas de uma justificativa histórica, por exemplo com base nos distintos caminhos confessionais, não levaram muito longe.
O estudioso também dá pouca fé às tentativas de interpretação, propostas por círculos norte-americanos, segundo as quais a fixação dos alemães no âmbito anal, em seus insultos, estaria fundamentada no caráter nacional.
Ele considera pouco científicas as teorias apresentadas, entre outros, pelo antropólogo Alan Dundes em seu livro de 1984 Life is like a chicken coop ladder: A study of German national character through folklore (A vida é como uma escada de galinheiro: Um estudo do caráter nacional alemão através do folclore).
Afinal, ressalta, a divisão entre ofensas de caráter sexual e escatológico já se manifestava em épocas em que ainda nem existia uma identidade germânica, como a conhecemos hoje.
Para os alemães que se sintam ofendidos com a acusação de fixação anal, o filólogo tem um argumento: “Na verdade, é algo que não se pode, absolutamente, criticar. Afinal, nós designamos algo negativo com atributos claramente negativos”. Em outras palavras: os insultos germânicos teriam mais lógica do que os do resto do mundo.
Além do mais, é provável mesmo que dentro de algumas décadas os europeus estarão todos xingando de forma semelhante, em todas as partes. Pelo menos na linguagem dos jovens, a Alemanha vem se aproximando do resto da Europa. Muitos deles já insultam, hoje, com expressões de cunho sexual. E cada um que decida por si se este é um sinal de progresso…

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