Rot Amsterdam. Vermelho Amsterdam.

De Bruxelas, partindo da Estação Internacional Gare du Midi, viajei até a Centraal Station de Amsterdam na primeira classe do Thalys. Havia uma promoção no site da companhia ferroviária com passagens de primeira classe pelo preço de segunda classe. A viagem foi muito confortável, com comidinhas e café a vontade, poltrona reclinável, carpete vermelho. Alguns moinhos já iam aparecendo aqui e ali na fronteira entre Bélgica e Holanda, embora naquele 04 de janeiro às 9:00 h da manhã estava ainda praticamente escuro. A Centraal Station de Amsterdam chama atenção pela sua arquitetura diferente; lembra um castelo. Naquela região há uma mistura caótica de pessoas, turistas, bicicletas, barcos, gaivotas, bondes e fios elétricos suspensos no ar. Amsterdam é vermelha, de um vermelho escuro que só existe lá, que eu nomeei de “vermelho Amsterdam”. Todos os prédios e casas são dessa cor, causando um impacto visual agradável no início, mas que acaba cansando após um certo tempo. Compramos os tickets do tram e fomos para o Hostel Stayokay próximo ao Vondelpark. Os tickets são comprados diretamente com o condutor do tram e sempre se deve validar o cartão tanto na entrada quanto na saída. Descemos na Leidseplein e fizemos o check-in no saguão do hostel tumultuado, cheio de jovens turistas. O português parecia ser a língua oficial do hostel, tamanho o número de turistas brasileiros. Não apenas a língua oficial do hostel, mas também da cidade, pois me atreveria a chutar que 95% dos turistas eram brasileiros, porque apenas escutávamos português em tudo quanto é canto. No meu quarto de quatro camas no hostel, havia somente brasileiros: dois que estavam lá apenas para fumar e um outro que estava sozinho esperando colegas que viriam do Brasil. Dessa situação surgiu uma história engraçada. Os dois primeiros falaram em inglês comigo, porque eu sem querer acabei pegando o cadeado de um deles que estava sobre a minha cama e tranquei meu armário. Mais tarde escutei eles falando português, mas não me pronunciei, pois eles estavam tão chapados que não valeria a pena gastar saliva. O outro rapaz puxou papo comigo, perguntando da onde eu era, em inglês. Respondi em inglês que eu era alemão. Ele se empolgou e começou a me contar sobre o Brasil, onde ele morava, dicas turísticas. Eu, na condição de alemão, fingi surpresa e quis saber tudo sobre o país tropical. Até história do Brasil ele me contou, dizendo que a ditadura militar começou em 1945 (ops!). Ele era estudante de Direito. Foi divertido! E não é que convenci bem no papel de alemão?
Deixamos nossa bagagem no bagageiro confuso do hostel e demos uma volta no Vondelpark, o polêmico parque. Mais em frente encontramos a Museumplein, a praça dos museus, onde há o clichê – mas obrigatório – “I amsterdam” – cheio de turistas pendurados nas letras gigantes querendo uma fotinho “cool”. A minha foto ficou mais para “Onde está o Wally?”, de tanta gente que havia lá. Seguimos em direção a Dam Square onde nos juntamos ao free tour do Sandemans. O guia foi um argentino de nome Pablo, divertidíssimo, jornalista que já mora lá há uns seis anos. Pablo nos trouxe uma série de informações históricas, que para mim eram totalmente desconhecidas. Pablo conseguiu desmitificar a imagem “fatal e sexy” de Amsterdam, mostrando um lado da cidade que os turistas não vêem, ou melhor, não querem ver. Ele nos contou a origem do nome da cidade, que séculos atrás chamava-se Amsteleredamme, que significava represa do rio Amstel, que corta a cidade. Só que com a ascensão da navegação que transformou a cidade num dos centros comerciais mais importantes da Europa no século XVII, optou-se por trocar o nome por outro que soasse mais internacional, virando Amsterdam. Um dos aspectos curiosos foi o de que a Igreja Velha, a mais antiga da cidade, fica justamente no meio do Bairro da Luz Vermelha. Então, quem chegou primeiro, as prostitutas ou a igreja? Foram as prostitutas. Como aquela região era a mais estável da cidade em termos de solo, a Igreja Católica ocupou o terreno e estava decidida a todo custo expulsar as meninas. Mas como a situação financeira não era das melhores naquela época, impedindo a construção da igreja, o bispo chegou a um acordo com a cafetina. As meninas, após o serviços prestados, deveriam encaminhar os clientes para a Igreja, onde deveriam se confessar e pagar uma quantia para receber o perdão divino. Foi dessa maneira, com dinheiro da prostituição, que a Igreja Velha foi finalizada. Outra marca histórica de Amsterdam é a rivalidade entre católicos e protestantes. Os calvinistas chegaram a Amsterdam e resolveram perseguir e condenar violentamente os católicos, como num filme de Quentin Tarantino. Até uma rua chamada Bloedstraat ou Rua de Sangue lembra o local dos episódios violentos. Porém, quem mandava na cidade, os mecenas, ricos que financiavam tudo, eram justamente católicos. Dessa forma, os protestantes acabaram delimitando regiões onde os católicos poderiam viver, embora cultos em igrejas estivessem proibidos. As igrejas católicas tiveram suas imagens de santos destruídas e foram transformadas em igrejas protestantes. Sem saída, os católicos começaram a reunir-se secretamente em igrejas disfarçadas: por fora aparentemente uma casa normal, mas por dentro todos os elementos cristãos, um altar, uma cruz. Pablo ainda nos contou outros fatos históricos interessantes, mas que por falta de tempo (infelizmente!) não descreverei aqui. Contudo citarei caso alguém tenha interesse em pesquisar na internet: Rembrandt e a aula de anatomia; os quarteirões com caveiras para onde as pessoas enfermas, como leprosos ou portadores da peste, eram levadas; a perseguição dos judeus e estrela de David amarela; o milagre da hóstia; a ocupação nazista de Amsterdam; a relação de Hitler com a rainha Wilhelmina; e a história de Anne Frank e a revolta de Amsterdam ao regime nazista.
Ao anoitecer, lá pelas 17:30 h, fizemos um passeio de barco pelos canais centrais de Amsterdam. Foi uma das experiências mais interessantes que fiz na Europa, inclusive recomendação da Friseurin que corta meu cabelo. As casas a beira dos canais já estavam iluminadas, de modo que era possível observar, por um ângulo voyer, o que as pessoas faziam na “privacidade” dos seus lares. Amsterdam é mais bonita a noite que de dia, cheia de luzes, letreiros luminosos, reflexo da iluminação na água dos canais. As casas em Amsterdam são todas estreitas e altas, geralmente com três ou quatro andares. Isso se deve ao elevados impostos residenciais, que são medidos de acordo com a área de sua propriedade. Antigamente as casas eram sinônimo de riqueza, pois quanto maior a área do terreno ocupado, maior o valor a ser pago. Uma das casas mais valiosas era a de Rembrandt. No alto de cada casa há um gancho, que era utilizado (e continua sendo até hoje) para realizar mudanças. Como as portas e escadas são estreitas, a única maneira de transportar objetos é pela janela. Isso faz com que algumas casas sejam inclinadas para frente, devido ao peso. Mas segundo o nosso guia, não há o menor perigo de desabamento, pois a cidade inteira é monitorada com sensores de movimento.
Depois passeamos pelo bairro da luz vermelha. Mas parecia que as moças não estavam atendendo naquele dia, ou talvez fosse muito cedo ainda. Havia uma ou outra, que se arrumava em frente ao espelho trajando lingeries minúsculas. De vez em quando um interessado batia no vidro da porta e elas diziam o preço, que em média estava custando 50 euros por hora. Policiais faziam a ronda naquele quarteirão continuamente, protegendo as meninas de qualquer inconveniente que turistas bêbados ou chapados pudessem causar, ou ainda evitando que elas fossem fotografadas. É expressamente proibido fotografar as meninas!
No sábado de manhã fomos a casa de Anne Frank. A fila estava enorme, dobrando a esquina, mas valeu muito a pena a espera. O memorial é a casa onde a família Frank se escondeu durante a ocupação nazista de Amsterdam. Não há móveis, apenas espaços vazios, fotos, reproduções de como era a casa. E muitas citações do diário que Anne escreveu durante o esconderijo. É emocionante. Comprei o diário dela e estou ansioso para começar a leitura.

Mais tarde, almoçamos um prato típico holandês, uma salsicha com purê de batatas e cenoura, e ainda bebemos uma cerveja holandesa. A tarde visitamos a exposição de Van Gogh, que estava temporariamente instalada no Museu Hermitage, já que o Van Gogh estava em obras. Além das pinturas do mestre holandês, visitamos também uma exposição de pintores impressionistas, incluindo obras de Claude Monet. Os impressionistas nunca me agradaram muito; sempre achei meio estranho aquele modo de pintar. Eles queriam capturar aquele momento, aquele segundo de uma paisagem, que é único. Parado em frente às enormes telas de Monet, meu conceito sobre Impressionismo mudou radicalmente. Fiquei encantado! Do Hermitage seguimos andando a beira do rio Amstel, com destino a estação de tram que nos levaria até a Leidseplein. No caminho, três brasileiros que havíamos conhecido no dia anterior durante o free tour, passaram pela gente de bicicleta, no mais típico “Amsterdam é um ovo” possível. Na Leidseplein nosso alvo tinha nome e sobrenome: Coffee Shop Bulldog. Queríamos visitar um para saber como funcionava. Bebemos um café Melange, que nada tinha de parecido com o de Viena. Lá dentro do bar a fumaça fedida dos baseados tanto dos clientes como dos garçons sobrevoava o local. Num cantinho, numa área reservada, havia um tia doidona fumando todas, que vendia a maconha para os clientes. Havia vários tipos, várias misturas. Parece que 5 gramas custavam 7 euros. E só é permitido fumar dentro dos Coffee Shops, que inclusive não vendem álcool. Foi um pouco chocante ver aquela cena: para nós, que não estamos acostumados com a legalização das drogas, é estranho ver esse comércio legal e sem restrições. Há cigarros prontos, mas a maioria enrola seus próprios. Tânia e eu rimos imaginando como seria a cena caso tentássemos fumar um baseado, pois nem enrolar um cigarro de palha a gente sabe. Do Bulldog voltamos para o centro, dar uma passada na Red Light District e na rua cheia de coffee shops e souvenirs. Amsterdam é complicada para quem tem dinheiro contado, pois há tanta coisa legal para comprar, que você fica enlouquecido. Nas lojinhas obviamente a temática dominante das lembrancinhas é a maconha: biscoito, chá, pirulito, chaveiro, caneca, batom, camiseta, boné, tudo. Experimentamos o pirulito e me viciei, embora não haja princípio ativo. Tem gosto de fumaça do cigarro. Compramos também bolachinhas e chá para tomar no hostel. Havia uma infinidade de plantas e cogumelos alucinógenos em algumas lojinhas daquela região, que por sinal, continuava parada como na noite anterior.
No domingo de manhã foi a vez de visitar o Rijks Museum (lê-se Raiks), onde estão expostas as obras dos mais importantes pintores clássicos holandeses, como Rembrandt e Veermer. O museu é enorme e para quem gosta de arte clássica é um prato cheio. Os pintores holandeses são os meus favoritos, pois eu gosto deste estilo meio “dark” e cheio de detalhes. A escola holandesa era perfeccionista, jogando com luz e sombra, num contraste escuro. Continuo achando incrível o realismo de pinturas onde aparecem copos ou vasos de vidro. Após o Rijks, caminhamos sem destino na beira de alguns canais. O sol resolveu timidamente dar as caras naquele domingo de manhã. Após um lanche rápido, fomos fazer a tal da Heineken Experience, um passeio interativo próximo a fábrica da cervejaria que foi criada em Amsterdam. Lá dentro é possível conhecer o processo de produção da cerveja, que é uma mistura de malte, lúpulo e fator A (a levedura secreta). Também é possível ver todos os comerciais da Heineken, que são sempre muito criativos. E no final ainda você tem direito a duas cervejas (na verdade três, porque a gente ganhou uma amostra no meio do passeio). O ambiente é bem legal, bem montado, mas para os amantes de cerveja, que esperam conhecer de fato como é fabricada a bebida, será uma decepção. É um ambiente que atrai os turistas mais pelo fato de ser “cool”, que pelo conteúdo. Não foi nenhuma surpresa encontrar apenas brasileiros lá dentro. Acho que todos os brasileiros estavam lá, achando o máximo ganhar duas cervejas de brinde e bater várias fotos perto do logotipo da Heineken. Só para comparar, sabem quantos brasileiros encontramos no Rijks? Nenhum. E no Hermitage ou na casa da Anne Frank? Uma meia dúzia. E nas ruas dos coffee shops? Perdemos a conta. É o perfil do turista brasileiro, que cada vez tem mais condições de viajar e não aproveita essa oportunidade para conhecer um pouco mais sobre história e cultura de outros lugares. Por que não conciliar a Heineken Experience com Van Gogh?

Esse é o meu comercial da Heineken favorito:

No domingo a noite tomamos um cházinho especial comprado no Bairro da Luz Vermelha, encerrando com chave de ouro essa viagem de início de ano. Deixei Amsterdam na segunda-feira de manhã completamente apaixonado pela história da cidade, que eu desconhecia totalmente e achei incrível, e também pelo idioma holandês. Estou pensando seriamente em estudar holandês quando voltar ao Brasil. A língua é muito engraçada, uma mistura maluca de inglês com alemão. A impressão que dá é que lá nos primórdios, nos tempos dos povos bárbaros eles falavam alemão e daí os ingleses chegaram e tentaram ensinar inglês, o que não conseguiram e acabou então surgindo essa língua tão interessante. Às 9:00 h em ponto o trem partiu da Centraal Station com destino a Alemanha.

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2 comentários sobre “Rot Amsterdam. Vermelho Amsterdam.

  1. Raul disse:

    Os alemãs dizem que holandês é alemão com dor de garganta.

    Muito interessante tua descrição da cidade e o estilo de escrita.

    1. Leopoldo disse:

      Obrigado Raul!
      Os alemães fazem muita piada sobre a língua holandesa mesmo. Apesar de ter uma pronúncia mais complicada e engraçada, tenho a impressão de que a gramática holandesa é mais fácil que a alemã!

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