Roter Stern in Budapest. Estrela vermelha em Budapeste.

Naqueles dias 26 e 27 de janeiro resolvi conhecer Budapeste em câmera lenta, sem aquela pressa que os turistas tem em visitar os pontos turísticos cheios de gente. Gergely estava em Pápa naquela primeira semana de férias do mestrado; havia chegado a Budapeste naquela sexta-feira. Sua mãe havia preparado carne de porco selvagem, arroz e salada, e enviou para o nosso jantar. Amizades verdadeiras não morrem mesmo. Eszter não estava em casa, pois havia ido ao cinema com os colegas da empresa onde trabalha. Conversamos por quase uma hora sobre os acontecimentos dos últimos tempos. Quando estávamos jantando, a irmã chegou e juntou-se a nós. Bebemos vinho húngaro e conversamos sobre planos futuros, viagens, o meu tempo na Europa. Após o jantar, entreguei os presentes que trouxera para Gergely: uma camisa da seleção brasileira número 10, imãs, um chaveiro da copa de 2014 e o livro Budapeste de Chico Buarque em alemão, com a dedicatória em alemão: “Uma história brasileira sobre a língua húngara em Budapeste em alemão. Como lembrança da nossa amizade brasileira-húngara-alemã”. Para ela dei uma pulseira indígena, com sementes e frutos da floresta Amazônica. Também recebi uma lembrança: uma camiseta com o mapa da Hungria e todos os pontos turísticos importantes.
Como eu já conhecia Budapeste, desta vez falei a Gergely que queria conhecer o lado B da cidade, aqueles lugares que não são turísticos. Queria sentir a atmosfera local, pelo menos por dois dias me sentir como um verdadeiro cidadão. Tudo o que visitamos foi sugestão minha, embora ele não conhecesse a maioria dos lugares, depois de alguns anos morando lá. Na manhã seguinte, acordamos cedo e fomos em direção a balsa para ir até o mercado municipal. Infelizmente, a balsa não trafegava nos fins de semana e meu passeio de barco no Danúbio azul vai ter que esperar para uma outra oportunidade. De tram mesmo fomos até o centro, ao mercado municipal. No verão nós já havíamos estado lá, mas desta vez havia menos gente e pude apreciar melhor o local. Cheio de frutas, ervas, temperos, carnes (muitas carnes) e páprica por todo o lado, o mercado é uma ótima pedida para um sábado de manhã. Comprei duas latas de páprica (doce e picante). No andar de cima muitos souvenirs e comidinhas, enquanto que no piso subterrâneo, muito chucrute fermentando em tambores, o que proporciona um cheiro não muito agradável, peixes em tanques e carnes e miúdos de todos os animais que você possa imaginar. Cabeças de porcos refrigeradas observavam os clientes. Deve ser uma imagem chocante para vegetarianos ao se depararem com cabeças e línguas de porco, rolos de pele e vísceras. Compramos um patê de fígado de ganso, só para experimentar no café da manhã do dia seguinte. Embora fosse uma mistura de fígado de ganso com fígado de porco, não achei ruim. Minha mãe ficaria orgulhosa ao ver esta cena, “Leopoldo comendo fígado”. Dali fomos em direção a Rua do Museu, onde havia vários “sebos” com livros antiquérrimos e relíquas que custavam muito caro. Também foi sugestão minha visitar estes sebos, pois eu queria encontrar alguns livros de Botânica antigos. Gastamos algumas horas observando vários antiquários, quando fomos almoçar rapidamente no McDonalds, para em seguida visitarmos o Parlamento. O Parlamento húngaro é uma das obras arquitetônicas mais lindas que já vi na vida. O prédio a beira do Danúbio lembra o parlamento inglês pela sua simetria, entretanto no parlamento húngaro há uma cúpula e ele é um tanto maior que o britânico. Todo decorado com mármore rosa e muito dourado, bem abaixo da cúpula está a coroa do primeiro rei da Hungria, Santo Estevão. Dois guardas vigiam a coroa e em períodos de tempo eles trocam de posição num ato simbólico. Após essa visita, andamos um pouco a beira do Danúbio e visitamos novamente o Memorial dos judeus, aquela série de sapatos de ferro na calçada em memória dos judeus que foram baleados e cujos corpos caíram nas águas do rio. Quando estava começando a escurecer, lá pelas 16 h, visitamos a Casa do Terror na Andrassy Utca, que conta o lado negro da história da época socialista em Budapeste. Logo na entrada um tanque de guerra afunda num lago de óleo, que escorre para o piso inferior. O museu é visualmente muito interessante, deixando a desejar apenas pelo fato de que todas as informações estão em húngaro e há alguns folhetos em outros idiomas, mas acaba tornando-se um pouco monótono. No piso inferior, no porão, é possível visitar as celas onde os prisioneiros políticos eram encerrados, assim como as sala de interrogatório e os objetos usados para torturar os suspeitos. O museu fica justamente no mesmo edifício que foi usado pelos nazistas durante a ocupação da Hungria e anos mais tarde o prédio do serviço de segurança do regime socialista. A instalação que mais me chamou a atenção foi uma parede com tijolos de silicone que imitavam banha de porco, proporcionando um ambiente bizarro. Naquela noite ainda visitamos o Café New York, o mais tradicional e também o mais caro de Budapeste, somente por fora, obviamente. Café mesmo tomei no McDonalds, e como! Nossa ideia era jantar num restaurante brasileiro no centro, mas ao chegar lá demos de cara na porta. O restaurante Corcovado não existia mais. Acabamos nos empaturrando num restaurante “all you can eat”, muito comum na capital húngara.
Na manha seguinte acordamos cedo novamente, desta vez com destino ao mercado de pulgas. Meu objetivo era encontrar relíquias socialistas e N., que segundo Gergely, era o local ideal, embora ele também nunca havia estado lá. Centenas de vendedores ambulantes, a maioria ciganos, distribuíam seus objetos sobre toalhas no chão, que ainda estava coberto com um pouco de neve. Ciganas trajando longas saias coloridas e estampadas, assim como homens chamando os clientes para darem uma olhada nas suas tendas, amontoavam-se no parque que fica atrás do Castelo Vajdahunyad. Fiquei enlouquecido com a quantidade de objetos socialistas, que iam desde insígnias, broches, até cadernetas do partido, assim como cartões postais de quase um século, fotografias, pinturas, porcelanas, e uma infinidade de quinquilharias. Gergely negociou para mim em húngaro todos os objetos que eu queria comprar, caso contrário teria pago muito mais caro. Aliás, Gergely foi meu “banco” durante estes dois dias na cidade: ele pagou todas as contas e depois, em Viena, eu devolvi o dinheiro em euros, como da outras vezes no verão. Comprei algumas insígnias socialistas da Hungria, aquelas condecorações militares de colocar no uniforme ou no chapéu. Comprei também alguns postais antigos, uma caderneta do sindicato socialista, dois broches da DDR (um em comemoração ao 16º e outro ao 20º aniversário) e ainda uma relíquia, uma moeda N. de 1939. Foi um achado histórico impressionante, deixando muito claro que adquiri tais objetos como forma de preservar a história e nunca jamais fazer apologia a tais fatos. Nunca pude imaginar que ainda fosse possível encontrar tantos objetos históricos num mercado de pulgas, mas segundo meu amigo, é muito comum. Passamos em frente ao Vajdahunyad em direção a Praça dos Heróis, onde tomamos o metro de volta a Andrassy Utca. Uma parada para um café no McDonalds e novamente tomamos um tram e mais tarde um ônibus com destino ao Memento Park ou Szobor Park, o parque da estátuas socialistas gigantes. A viagem de ônibus é longa, e por pouco não perdemos o ponto de descida, já que Gergely não sabia exatamente onde ficava, e eu, sem querer, acabei lendo uma placa na estrada. Foi muito legal visitar esse parque. Logo na entrada o hino socialista já tocava no rádio. Lá dentro, estátuas gigantes remanescentes dos tempos da ditadura. As botas de Stalin, Lenin, outros anarquistas húngaros e estátuas do heróis do socialismo, representado na figura do trabalhador. Num galpão fora do parque havia a exibição de um filme mostrando como era o serviço secreto comunista, as técnicas que os espiões usavam para controlar a vida dos suspeitos contra o regime. De volta ao centro da cidade, fomos até o alto de Óbuda e passeamos um pouco pelo Fischermann Bastion e Igreja de Matthias naquele entardecer frio. A sensação térmica era abaixo de -10ºC. A vista do alto do morro sobre a cidade, com destaque para o Parlamento iluminado é incrível. O Parlamento a noite é soberbo. Atreveria-me dizer que é uma das construções mais belas da Europa. Finalizamos aquele dia jantando num dos restaurantes mais movimentados da cidade, o Trófea Grill, onde você também pode comer o quanto quiser a um preço único. Chegando no apartamento, ao acessar na internet, as manchetes falavam do trágico incêndio de Santa Maria. No próximo dia partiríamos para Viena.

Alguns vídeos sobre Budapeste:

E se Budapeste fosse destruída?

Timelapse de Budapeste.


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